Território Stelia, no sopé da Cordilheira do Gelo e da Neve.
Um menino solitário, empunhando uma lança, caminhava por um caminho estreito e traiçoeiro onde nem mesmo cavalos conseguiam passar. Ele tinha cabelos loiros rebeldes, era excepcionalmente alto para sua idade e possuía um físico musculoso. Tratava-se de Valum Rio Draconis, um escudeiro dos Cavaleiros de Stelia.
Todos os dias treinava até tarde da noite enquanto ajudava os cavaleiros em suas patrulhas noturnas. Sua rotina também incluía escapar mais cedo de suas funções para lamentar seu amado dragão, Flugel. Na região, era costume domesticar dragões voadores para combate e transporte. Quando um deles morria, era comum deixar o corpo onde havia caído, em vez de enterrá-lo.
Embora esses dragões fossem considerados de nível inferior, suas escamas, carne e órgãos internos eram extremamente valiosos, o que gerava grande demanda. Muitos viam seus dragões como membros da família e acreditavam que era errado desmontá-los e vendê-los após a morte. No entanto, devido ao enorme tamanho dessas criaturas, transportar seus restos mortais era caro e muitas vezes não havia terra suficiente disponível para o enterro.
Dadas essas circunstâncias, os dragões frequentemente eram deixados para retornar à natureza. Ainda assim, como os materiais podiam atingir preços elevados, havia indivíduos que perturbavam as carcaças.
Normalmente guardiões eram contratados para vigiar os restos mortais até que se deteriorassem. O jovem escudeiro, porém, optou por supervisionar pessoalmente o corpo de Flugel. Todas as noites, sem falta, visitava o local de descanso do dragão, oferecendo flores e contando os acontecimentos do dia.
Flugel havia morrido recentemente.
Algum tempo antes, na fronteira norte — em direção ao Império — surgiu uma 'Besta Mecânica'. As Feras Motorizadas eram armas utilizadas pelo Império para defender a fronteira, assumindo diversas formas. Ocasionalmente algumas escapavam do controle e invadiam o território de Stelia.
Esses desgarrados eram chamados de 'Hagure'. Quando atacavam assentamentos humanos, os Cavaleiros se mobilizavam para derrotá-los. O Hagure daquele dia era uma criatura poderosa semelhante a um antigo pterodáctilo.
A unidade de elite dos cavaleiros dragões enfrentou a criatura, mas não conseguiu derrotá-la, sofrendo várias baixas. Diante disso, o escudeiro decidiu enfrentá-la ao lado de seu dragão.
Após uma batalha intensa, conseguiu destruir o Hagure, mas acabou caindo durante o combate. Para salvá-lo, Flugel mergulhou bruscamente.
O dragão conseguiu pegá-lo com as mandíbulas e resgatá-lo, mas, devido ao mergulho abrupto, perdeu o equilíbrio e caiu na encosta da montanha, amortecendo a queda do cavaleiro.
Ambos sobreviveram sem ferimentos graves, porém a criatura quebrou uma asa — algo vital para um dragão voador. Incapaz de se mover dali, precisava de cura, e o jovem passou a procurar desesperadamente qualquer solução.
Poções eram feitas para humanos e não funcionavam em monstros. Nem mesmo as melhores poderiam reparar uma asa quebrada. A única esperança estava na magia de cura.
Desesperado, ele correu até a igreja, explicou a situação e implorou por ajuda. O pedido foi negado. Reparar uma asa exigia magia de cura de alto nível.
Embora houvesse curandeiros poderosos na região, todos ocupavam posições elevadas na hierarquia da igreja. As doações exigidas eram exorbitantes — muito além do que um escudeiro menor de idade poderia pagar.
No entanto, seu mentor, o 'Sword Saint' Eric, ofereceu-se para cobrir o valor. Ainda assim, a igreja recusou, alegando que um servo sagrado não poderia curar um monstro.
O Santo da Espada protestou junto à família do Duque da Fronteira de Stelia, mas a igreja permaneceu irredutível. No final, nenhum tratamento foi concedido.
O jovem continuou visitando a encosta da montanha. Levava comida, falava com sinceridade e cuidava do dragão. Mesmo assim, a cada dia que passava, a criatura ficava mais fraca, até parar completamente de comer.
Um dia, após soltar um único grito, Flugel fechou os olhos como se estivesse adormecendo — e nunca mais acordou.
Os dois estavam juntos desde a infância. Compartilhavam refeições, às vezes brigavam, mas o vínculo entre eles era mais profundo que o de parentes de sangue. A morte do dragão era algo impossível de aceitar.
Todas as noites ele continuava visitando o local de descanso, sonhando que algum milagre pudesse fazê-lo despertar novamente.
“— Você é Valum Rio Draconis, não é?”
Enquanto visitava o local de descanso de Flugel, percebeu alguém atrás dele. A pessoa havia se aproximado sem fazer barulho. Era um garoto de cabelos castanhos usando um jaleco branco.
“Quem é você?”
O menino sorriu de maneira provocadora.
“Eu sou Raymond. Vou me tornar seu amigo para toda a vida, Valum.”
Esse foi o encontro fatídico entre o escudeiro e aquele que, no futuro, seria conhecido como o Segundo Lorde Demônio e também como o Dragon Tamer, o mais forte entre os Quatro Reis Celestiais.
***
Raymond possuía um poder misterioso: a capacidade de conversar com seres de outro mundo conhecidos como demônios. Com esse dom, formava contratos e estabelecia relações com várias dessas entidades, podendo invocá-las quando necessário.
Isso lhe concedia uma força formidável, capaz de rivalizar com exércitos inteiros.
Entre os demônios invocados havia um capaz de ressuscitar os mortos.
A criatura chamada agora era um esqueleto envolto em vestes negras — o Precursor da Morte, Leithe, um morto‑vivo de alto escalão conhecido como demilich.
Além de inúmeros feitiços, Leithe dominava a necromancia, uma forma de magia perdida nos tempos modernos.
Por meio desse poder, Flugel recebeu uma vida falsa e foi ressuscitado.
Normalmente isso resultaria em um dragão cadáver em decomposição. No entanto, graças ao poder do demilich, o corpo foi restaurado e transformado em algo completamente diferente.
A entidade ressuscitada não era exatamente Flugel, mas um morto‑vivo superior criado a partir de seu cadáver.
Mesmo assim, ao vê‑lo mover-se na forma de um wyvern, o jovem cavaleiro tremeu de alegria.
“Flugel… Isso é realidade? Flugel…”
Lágrimas escorriam sem parar. Ele havia sido incapaz de fazer qualquer coisa além de assistir o dragão — a existência que considerava sua outra metade — definhar lentamente.
“Desde que você adormeceu, muitas coisas aconteceram… Eu queria falar com você de novo…”
“— Você pode conversar o quanto quiser. Agora terá tempo de sobra para isso.”
Raymond falou gentilmente ao ver as lágrimas do cavaleiro.
“Isso é… realmente realidade? A ressurreição não deveria existir na magia sagrada…”
“Seu amado dragão foi revivido. Eu possuo um poder que a igreja não tem. Nada além disso.”
“Raymond… foi você? Como posso expressar minha gratidão…?”
Tomado pela emoção, ele abaixou profundamente a cabeça.
O dragão que considerava sua própria família havia sido perdido por sua imaturidade. Chegara até a pensar em tirar a própria vida.
Mas agora um milagre estava diante de seus olhos.
“…Fui salvo por você. Mas sou apenas um cavaleiro em treinamento. O que posso lhe oferecer em troca?”
Raymond se ajoelhou e segurou seus ombros.
“Eu tenho um sonho. Para alcançá-lo enfrentarei muitos desafios. Preciso de força para superá-los… da sua força.”
“…Entendo. Farei tudo ao meu alcance para ajudá-lo. A partir de agora, sou sua lança.”
O juramento foi aceito com um sorriso.
“Da próxima vez farei uma festa do chá em minha casa. Vou convidar você. Tenho amigos que gostaria que conhecesse.”
Sem hesitar, o cavaleiro segurou a mão estendida.
O dragão cadáver — embora não fosse exatamente Flugel — não despertou qualquer dúvida em seu coração.
A criatura era diferente. Os gestos e chamados sutis que definiam o verdadeiro dragão já não existiam.
Ele deveria ter percebido.
Mas não perceberia.
Aceitar a diferença significaria aceitar a morte de Flugel.
E isso era algo que jamais poderia suportar.
De mãos dadas, os dois permaneceram lado a lado.
Atrás deles, o dragão cadáver branco soltou um rugido.
Era o grito de nascimento de um morto‑vivo — uma existência à qual havia sido concedida uma vida falsa.
