Prólogo

Publicado em 28/12/2025

Em A Lenda dos Sete Heróis I, uma série de incidentes se desenrolou na capital imperial à medida que a história progredia.

Certo nobre morreu em circunstâncias misteriosas.

Um guarda real, tendo perdido a sanidade, mostrou as presas ao Terceiro Príncipe.

O príncipe foi raptado.

E o cavaleiro que supostamente o havia capturado foi encontrado brutalmente assassinado.

Independente da facção, os ataques continuaram sem fim e a outrora gloriosa capital imperial de Leomel mergulhou no caos em questão de instantes.

Alguns alegaram que se tratava de uma invasão por uma nação estrangeira.

Alguns bradaram que era a ira do Deus Supremo.

Mas não foi esse o caso.

Ninguém esperava que tudo aquilo fosse uma declaração de guerra feita por um único nobre.

Toda aquela comoção, que ultrapassava qualquer compreensão do senso comum, fora orquestrada por um homem consumido pela vingança.

No entanto, esse futuro jamais se concretizaria.

Porque a existência de um homem, alterou drasticamente o destino do mentor por trás da turbulência, o líder da facção monarquista, o Marquês Ignat.

***

Eupeheim.

Dentre as cidades costeiras do Império Leomelano, era a mais grandiosa.

Com sua aparência majestosa e elegante, ela foi por muito tempo chamada de Coroa Branca e louvada como a Cidade da Água.

Construída ao longo de uma costa quase circular, a cidade era particularmente famosa por seu enorme porto.

Era uma cidade pitoresca, amada por gerações de imperadores, onde casas de tijolos brancos se alinhavam em fileiras organizadas.

Os gondoleiros conduzindo barcos pelos inúmeros canais eram uma visão popular entre os visitantes.

A cidade ficava a cerca de um mês de viagem a cavalo de Clausel e aproximadamente a duas semanas da capital imperial.

Como um centro crucial para o comércio marítimo de Leomel, o nobre que supervisionava Eupeheim tinha que ser altamente capaz, um estrategista astuto que não demonstrasse fraqueza perante as nações vizinhas.

Muitos nobres o temiam por causa disso.

Ulisses Ignat o Senhor de Eupeheim.

Um homem de beleza estonteante, com cabelos negros e lustrosos que reluziam com um profundo brilho azul, um jovem nobre de apenas trinta e cinco anos de idade.

“Ah, Edgar.”

Ele chamou seu mordomo, que acabara de voltar de Clausel.

O cenário era o jardim de sua grandiosa mansão, uma propriedade apropriadamente descrita como um pequeno castelo, localizada no coração de Eupeheim.

“Sim, meu senhor. Acabei de voltar” respondeu Edgar.

Já haviam se passado quase dois meses desde a última vez que ele pisara em Eupeheim.

Naquela primavera, ele viajou para Clausel sob as ordens de seu senhor, em resposta às ações imprudentes do Visconde Given.

O Marquês Ignat estendeu sua ajuda ao Barão Clausel, a quem devia muito.

No final, graças aos esforços excepcionais de Ren e Leshia, o incidente foi encerrado.

Edgar finalmente retornou ao lado de seu senhor.

“Fico aliviado em ver que o senhor está bem, meu senhor.”

“Claro que sim! Além disso, hoje está um belo dia, não é? Eu estava pensando em causar um pouco de confusão para a Facção dos Heróis enquanto estou aqui!”

Ulisses disse alegremente, enquanto olhava para uma área de estar no jardim. Ele sentou-se, fazendo um gesto para que Edgar fizesse o mesmo.

No entanto, era impensável um servo sentar-se ao lado de seu senhor.

“Peço desculpas, mas sou apenas um mordomo.”

“Que insensibilidade da sua parte… Bem, então, devo ficar em pé no seu lugar? Isso nos tornaria iguais, não é?”

Mas é claro que Edgar não podia permitir que seu mestre se levantasse. No fim, ele cedeu e sentou-se.

“Conte-me o que aconteceu em Clausel.”

Edgar relatou os acontecimentos em detalhes.

Desde o funcionário público que trabalhava sob o comando do Visconde Given, até o primeiro julgamento e o veredicto final.

Ele prosseguiu, descrevendo como o Barão Clausel quase foi levado para a capital imperial e como Ren e Leshia retornaram bem a tempo.

Por fim, ele contou a Ulisses sobre as notáveis conquistas dos dois.

“Entendo… Então ele era realmente um menino excepcional?”

“Não há dúvida.”

“Mesmo em comparação com os filhos da família Eirhardt?”

"Ah. Tenho certeza de que até o senhor meu lorde, concordaria que Ren Ashton vale mais do que o próprio ouro."

Ao ouvir isso, Ulisses abriu um sorriso despreocupado.

"Essa foi uma boa história. Graças a você, sinto que minha irritação em relação a Sua Majestade diminuiu um pouco."

"...Meu senhor, se me permite..."

"Não diga isso. Eu já sei, sua Majestade se recusou a fornecer os materiais por causa dos interesses da família real."

Ele compreendeu o raciocínio, mas isso não significava que tivesse que aceitá-lo.

"A constituição peculiar de Fiona também teve um papel importante nessa questão. Não era algo que pudesse ser resolvido facilmente, eu sei disso."

Mas mesmo assim...

"Às vezes me pergunto: o que eu teria feito se Fiona tivesse perdido a vida?"

"Aquilo é…"

"Talvez eu tenha orquestrado um golpe. Assassinado o Terceiro Príncipe, o herdeiro aparente e desejado a queda de Leomel. Haha, não me olhe assim."

A expressão de Edgar se contorceu de tensão enquanto ele ouvia. Cada palavra dita por seu mestre era perigosa demais.

Em circunstâncias normais, tais pensamentos seriam impensáveis.

Mas isso era apenas de acordo com o senso comum.

Edgar sabia que Ulisses, o homem sentado à sua frente, era alguém capaz de subverter tais normas.

"Felizmente, o estado de saúde de Fiona só pôde ser controlado com os materiais provenientes de Sheefulfen."

"Exatamente. É por isso que eu gostaria de manter um bom relacionamento com a família Clausel."

"Ah, é? Não a família Ashton?"

"Tecnicamente, ambos. Mas veja bem, lidar com nobres é uma grande dor de cabeça. Se eu estendesse a mão à família Ashton agora, não seria melhor do que aquele visconde tolo."

"Me desculpe."

Ulisses dispensou a ideia com um tom alegre.

"Você entrará em contato com eles?"

A pergunta de Edgar carregava um significado mais profundo: será que seu mestre tentaria trazer a família Clausel para a sua facção?

"O Barão Clausel é um homem orgulhoso entre os nobres independentes, apesar de não ter patronos. Se você resolvesse fazer uma proposta..."

"Não faça isso. Esse tipo de manobra grosseira é igual às táticas da Facção Heroica. Já há suspeitas de que o barão esteja se aliando à Facção Real, então se eu agisse de forma imprudente, seria como retribuir a gentileza com traição."

Ulisses soltou uma risada amarga e deu de ombros. Naquele instante, uma voz os chamou.

"Pai?"

Logo depois, apareceu uma jovem senhora, que trazia consigo o perfume das flores.

Com a ajuda de uma criada, ela caminhou em direção a eles com passos instáveis.

O colar em seu peito era uma corrente de prata adornada com uma pedra preciosa preta como azeviche, que balançava a cada movimento.

"Edgar! Você voltou!"

Seus longos cabelos negros como azeviche balançavam como obsidiana polida enquanto ela se movia.

Enquanto a brisa primaveril levantava seus longos cabelos até a cintura, a luz do sol iluminava seus traços delicados, conferindo-lhe uma beleza quase etérea — como a de uma fada ou um anjo.

Sua pele alva como a neve era impecável e seus traços faciais delicados a faziam parecer mais velha do que realmente era.

Na verdade, ela era dois anos mais velha que Ren e Leshia.

"F-Fiona! Por favor, espere! Deixe-me ajudá-la!"

Edgar gritou alarmado, mas Fiona apenas sorriu corajosamente.

"Não se preocupe com isso. Eu também preciso me esforçar."

Com passos firmes, ela dirigiu-se à mesa do jardim.

Ainda segurando a mão da criada, ela se acomodou em uma cadeira, respirando fundo algumas vezes antes de erguer o olhar.

"Bem-vindo de volta, Edgar."

Seus olhos cor de lavanda, orgulhosos e dignos, encontraram os dele.

Essa jovem era ninguém menos que Fiona Ignat, a filha de Ulysses Ignat.

No jogo, a morte dela fez com que Ulisses desprezasse Leomel, transformando-o em um inimigo aliado ao culto do Rei Demônio.

Mas agora, Fiona estava viva.

Como Ren havia caçado os Sheefulfen, ela foi poupada da morte.

Mesmo assim, ela ainda não estava recuperada o suficiente para andar sozinha, se dedicou à reabilitação todos os dias e aqueles ao seu redor testemunharam sua determinação inabalável.

"Como foi sua viagem até Clausel?"

"Foi uma jornada proveitosa. No entanto Lady Fiona—"

Apesar de se dirigir a ela respeitosamente, Edgar ousou fazer uma sugestão firme.

"Como já mencionei, por favor evite falar com nós de posição inferior, dessa maneira."

"Hehe, mas você já sabe, Edgar. Sempre falei assim por influência da minha mãe."

"Mesmo assim-"

"Não adianta. Você vai ter que aceitar."

Embora seu tom fosse descontraído e brincalhão, uma determinação profunda e inabalável brilhava nos olhos de Fiona.

"Pai, eu gostaria de visitar Clausel e expressar pessoalmente minha gratidão a Ren Ashton."

"Eu também gostaria, mas o Barão Clausel pediu que esperássemos. Com nossas facções divergentes e considerando meu status de marquês, é complicado."

"Então... que tal uma carta?"

"Essa é uma boa ideia, mas por agora, devemos respeitar os desejos do Barão Clausel. Tenha um pouco mais de paciência."

"…Eu vejo."

Fiona baixou o olhar, desapontada.

Ren havia salvado a vida dela, não queria causar problemas para o seu mestre, o Barão Clausel.

Mesmo assim, ela queria expressar sua gratidão, acontecesse o que acontecesse.

Fiona olhou para o céu e ofereceu uma oração silenciosa ao Deus Supremo Elphen.

‘Algum dia, eu o encontrarei e o agradecerei como deve ser, aconteça o que acontecer.’