Capítulo 5

Publicado em 26/12/2025

A partir do dia em que Weiss e seus homens partiram, a vida de Roy tornou-se mais agitada do que nunca.

Ele acordou mais cedo do que o habitual para ir à floresta e voltou para casa ainda mais tarde da noite.

Dia após dia, semana após semana, o cansaço em seu rosto tornava-se cada vez mais evidente.

"...Querido, você deveria fazer uma pausa, mesmo que seja só por um dia."

À mesa de jantar, Mireille sugeriu que ele descansasse, mas Roy recusou.

“Não posso. Tenho que caçar o máximo de monstros possível para impedir que aquela coisa chegue muito perto da aldeia.”

Ele simplesmente sorriu, dizendo que só precisava aguentar mais treze dias.

‘Se eu soubesse que as coisas terminariam assim, também teria treinado para lutar contra monstros na floresta...’

O arrependimento não mudaria nada, mas Ren não conseguia evitar pensar nisso.

Naturalmente, ele pediu a Roy que o levasse também para a floresta.

Mas Roy recusou categoricamente. Não importava quantas vezes Ren implorasse, seu pai não cedia.

O tempo passou e Ren passava os dias se sentindo frustrado.

Então, dez dias depois da partida de Weiss, a noite caiu mais uma vez. O céu, antes tingido de carmesim, estava sendo engolido pela escuridão.

Em poucos minutos, a noite tomaria conta completamente.

“Mãe, o papai ainda não voltou. Não é tarde demais?”

Sentindo-se inquieto, Ren foi até a cozinha e chamou Mireille.

“Hum… Talvez ele esteja apenas se esforçando mais do que o normal hoje…”

Ela tentou se tranquilizar, mas a preocupação logo tomou conta.

“Vou lá ver como ele está.”

“Eu irei em seu lugar.”

“Não. É tarde demais e é perigoso.”

Seu tom firme não deixava espaço para discussão, mas Ren não estava convencido. Ele rapidamente encontrou uma solução de compromisso.

“É perigoso você ir sozinha também. Se for preciso eu te sigo em segredo, então seria mais seguro se fôssemos juntos, certo?”

“Haa… Ren, por que você tem que ser tão esperto das piores maneiras?”

Mireille não tinha como convencê-lo a desistir.

Ela pensou em obrigá-lo a ficar, mas a ideia dele se aproximar sorrateiramente por trás dela parecia ainda mais perigosa.

No fim ela concordou em deixá-lo ir junto.

‘Esta é a primeira vez que saio à noite desde que me tornei Ren…’

Ao sair do chão de terra batida da cozinha, ele sentiu a brisa fresca da noite roçar em sua bochecha.

O aroma da grama trazido pelo vento e das flores, lhe fazia cócegas no nariz.

O chilrear dos insetos preenchia o ar, um som que ele teria preferido ouvir numa noite tranquila.

“Ren, me dê a sua mão.”

Os dois caminhavam de mãos dadas.

“Cuidado para não tropeçar.”

Mireille disse enquanto erguia uma tocha.

O brilho tênue das estrelas e das luzes da vila não foram suficientes para iluminar seu caminho.

Nessa escuridão, era difícil enxergar até mesmo a poucos metros de distância.

Um único passo em falso poderia fazê-los cair.

Cerca de trinta minutos depois de saírem da casa, depararam-se com um caminho ladeado por tochas de ambos os lados.

“Essa é a entrada da floresta, aquele rio separa a vila da mata.”

O caminho entre as tochas levava a uma ponte suspensa de madeira.

Não foi construído com a delicadeza de um artesão habilidoso, mas sua estrutura de toras grossas deixava claro que era robusto.

“Onde ele poderia ter… hein?”

Mireille parou de repente.

Ao lado dela, Ren acompanhou seu olhar. Do outro lado da ponte, encostada numa árvore, estava uma figura sentada imóvel.

No momento em que perceberam que era Roy, avançaram rapidamente.

‘…Algo está errado.’

Mesmo com eles se aproximando, Roy mal reagiu.

Tudo o que ele fez foi inclinar levemente a cabeça na direção deles.

Ele nem sequer ergueu o olhar, apenas respirava pesadamente, com os ombros subindo e descendo de forma irregular.

“Querido! Estávamos tão preocupados—”

As palavras de Mireille foram interrompidas no meio da frase. Ren, percebendo a mesma coisa, deu um suspiro de espanto.

“P-Papai?!”

O homem que partira naquela manhã, cheio de vida, agora jazia encostado a uma árvore, com sangue jorrando de seu corpo, manchando o chão de um vermelho intenso.

“Mirei… lle… Re… n…”

“Não fale! Fique quieto, vamos te levar para casa imediatamente!”

“...Não… você… precisa… correr…”

O braço trêmulo de Roy estendeu-se. Seus dedos ensanguentados agarraram o ombro de Ren, mas seu aperto era fraco.

“...V-vai…! Meu sangue… vai… atrair… monstros…”

Com essas últimas palavras hesitantes, Roy ficou imóvel.

Mas quando Ren colocou a mão no peito, ainda conseguiu sentir uma leve pulsação.

Então das sombras das árvores, respirações pesadas e excitadas enchiam o ar.

“Brruuuuh!”

“Hff, hff…!”

“Bruuaaah!”

Três javalis emergiram da escuridão.

Seus corpos, aproximadamente do tamanho de cães grandes, eram cobertos por uma pelagem espessa e manchada de lama, resistente como uma armadura.

Suas presas afiadas e mortais, podiam dilacerar a carne num instante.

‘Eles foram atraídos pelo cheiro de sangue…’

“AAAAAAGH!”

Ren não teve tempo para decidir se lutava ou fugia. Um dos javalis já havia investido diretamente contra ele.

“Mãe! Leve o papai de volta para casa!”

“Ren!?”

“Vai logo! Eu sou o único que pode lutar agora!”

Ren deu um passo à frente, posicionando-se entre os javalis e sua família. Mas ele nunca havia lutado contra feras antes, nem mesmo em sua vida passada.

Diferentemente dos humanos, ele não tinha ideia de como eles se moviam em batalha.

Ao ver o pequeno javali mostrar-lhe as presas, o suor escorreu pelo seu pescoço.

“Brooo!”

O monstro saltou em direção à sua garganta.

Ren reagiu por instinto, agarrando a espada mágica de madeira que carregava na cintura e a empurrando para a frente — enfiando-a na boca do javali como um freio, forçando suas mandíbulas a se abrirem.

"...Guh, grhh...!"

Mesmo assim, ele não conseguiu frear completamente o impulso e acabou caindo para trás, aterrissando de costas.

As presas imundas e amareladas do pequeno javali gotejavam saliva fétida à medida que se aproximavam, intensificando o medo de Ren. Mas ele lutou para se controlar, cerrou os dentes e avançou com toda a sua força.

Para sua surpresa, ele empurrou a fera para longe com facilidade.

‘Entendo... Meu treinamento com o papai me deixou muito mais forte.’

Ao perceber isso, Ren saltou de pé e brandiu sua espada mágica de madeira contra a cabeça do Pequeno Javali.

Um segundo imediatamente se lançou sobre ele, ao contrário de antes, Ren estava calmo e preparado.

"Bwuh—!?"

Com outro golpe poderoso, sua espada atingiu o crânio do segundo javali. Nem mesmo a pele grossa e resistente da criatura era páreo para a força bruta de Ren.

"Grrr…"

"Agh…"

Os dois javalis desabaram com gritos fracos, suas cabeças profundamente amassadas onde a espada mágica de madeira os havia atingido.

Ao ver isso, o javali restante soltou um guincho patético e virou as costas, fugindo para a escuridão.

"Ren!? Não acredito que você ficou tão forte…!"

Mireille ainda estava amparando Roy, seus passos lentos devido à diferença de tamanho entre eles. Ela mal conseguira atravessar a ponte suspensa.

"Estaou bem aqui! Vamos nos apressar e levar o papai de volta para casa!"

Ren pegou Roy dos braços de Mireille e se dirigiu para casa com passos apressados.

Ao deixarem a ponte para trás e seguirem pelos campos completamente escuros, os olhos de Mireille brilharam quando ela avistou a casa deles.

"Vou buscar a vovó Rigg!"

"Vovó Rigg?"

"Sim! Ela tem talento para boticário, ela saberá o que fazer!"

A caminhada de volta, por mais escura e desolada que fosse, não lhe pareceu nem solitária nem sinistra.

Ren estava excessivamente preocupado com o pai.

***

Quando o tratamento de Roy finalmente terminou, o amanhecer estava apenas começando a surgir.

A porta do quarto dos pais dele rangeu ao abrir e uma exausta Vovó Rigg saiu.

"Vovó Rigg! Como está o papai!?"

Ren passou a noite toda sentado no chão do lado de fora do quarto, aguardando ansiosamente por notícias. Ele se levantou num pulo e correu até lá.

"...Por enquanto, você pode respirar aliviado" disse ela.

"O estado dele ainda é precário, mas ele está estável."

Quando Ren deitou Roy na cama na noite anterior, viu de perto os ferimentos do pai. Um corte profundo atravessava horizontalmente seu abdômen, quase expondo suas entranhas.

Segundo a avó Rigg, seus ossos também haviam sido fraturados em vários lugares.

No entanto, algo não parecia certo para Ren.

‘Papai não teria dificuldades contra os Javalis Pequenos, até eu conseguir derrotá-los sozinho.’

Isso só pode significar uma coisa:

Roy havia lutado contra aquele monstro.

Seu pai conhecia a floresta como a palma da mão e não era imprudente o suficiente para se aventurar muito fundo. Isso significava que a criatura sobre a qual Weiss havia alertado tinha se aproximado da aldeia.

Esse pensamento fez Ren estremecer.

"...Posso ver o papai?"

Vovó Rigg assentiu com a cabeça e disse que voltaria naquela tarde para verificar como ele estava antes de ir embora.

Quando Ren entrou no quarto dos pais, viu Roy deitado na cama grande.

Seu corpo inteiro estava envolto em bandagens manchadas e sujas. Era uma visão dolorosa. Seus olhos estavam fechados, mas o leve movimento de seu peito confirmava que ele ainda respirava

.

"Quando ele acordar, temos que lhe contar" murmurou Mireille.

"Que só estamos seguros agora por sua causa, Ren."

Ela estava sentada num banquinho redondo ao lado da cama, com uma aparência tão exausta quanto a da vovó Rigg.

Ren observou sua figura cansada antes de voltar seu olhar para o pai.

Seu pai havia cumprido seu dever como cavaleiro da aldeia. Mas agora que ele estava gravemente ferido, quem restava para proteger a aldeia?

Ren se fez essa pergunta.

E no fundo do seu coração, ele já sabia a resposta.

‘Não há mais ninguém, tem que ser eu.’

"...Mãe. A partir de amanhã, eu vou ocupar o lugar do papai."

Ao ouvir a declaração de seu filho pequeno, Mireille levantou-se bruscamente do banquinho.

"Não, de jeito nenhum! Você é esperto, Ren... você sabe o que isso significa, não sabe?! O monstro que atacou seu pai não era apenas um Javalizinho!"

"Eu também acho! Mas—!"

"Não há 'mas'! Se seu pai não conseguiu derrotá-lo, o que você fará se ele aparecer novamente?!"

Ren estremeceu ao ouvir as palavras dela.

Ela tinha razão.

Mas isso não significava que ele pudesse recuar.

"Papai não é imprudente. Ele não teria se machucado tão gravemente a menos que aquele monstro estivesse mais perto da vila do que pensávamos."

"Isso é…"

"O que significa que não temos tempo para hesitar."

Além do mais…

"Como um Ashton, é meu dever proteger esta vila, assim como meu pai."

Mireille ficou em silêncio.

Ver aquela expressão de dor no rosto dela fez o coração de Ren doer, mas ele não podia voltar atrás no que tinha dito.

Até mesmo Weiss, o capitão cavaleiro das forças do barão, havia dito isso: a família Ashton tinha a responsabilidade de defender a vila.

"Pensei em evacuar todo mundo" continuou Ren.

"Mas se formos embora, vamos encontrar monstros não importa para onde formos. E no fim das contas, eu ainda sou o único aqui que pode lutar."

Até a chegada dos reforços enviados pelo barão, eles não tiveram outra escolha senão resistir na aldeia.

***

Mireille não teve outra escolha senão aceitar.

Ren tinha razão. Como filho de um cavaleiro, esse era o seu dever. E ela não tinha argumentos para refutar isso.

No entanto, ela o fez prometer uma coisa: que ele não correria riscos desnecessários.

Ela também lhe impôs restrições. Ele só podia patrulhar num raio de trinta minutos a pé da ponte suspensa. Se algo parecesse errado, ele tinha que voltar imediatamente. E, acontecesse o que acontecesse, ele tinha que estar em casa ao anoitecer.

***

"Ah, aqui está."

Algumas horas depois de Roy ter sido encontrado, Ren estava parado logo depois da ponte suspensa que dava para a floresta.

Ele havia retornado para recuperar as duas carcaças de javali que havia abatido na noite anterior.

Ele não só queria vender o material, como também queria se livrar dele para evitar atrair o monstro que havia ferido Roy.

"Muito bem... vamos lá para cima."

Graças ao pequeno aumento de força proveniente de suas habilidades, ele conseguiu erguer os dois javalis pequenos sobre os ombros ao mesmo tempo.

O cheiro de sangue e pelos ardia em seu nariz, mas ele tinha que suportá-lo.

Enquanto fazia uma careta ao sentir o cheiro.

"Huh-?"

Algo quente começou a emanar do peito do Pequeno Javali.

A princípio, Ren pensou que fosse sangue.

Mas não era.

No momento em que ele deixou cair a carcaça no chão, algo incrível aconteceu. Um aglomerado de partículas cintilantes, como uma aurora boreal, deslocou-se lentamente do peito do javali em direção ao braço de Ren.

Com os olhos arregalados de espanto, ele rapidamente removeu sua armadura de couro para verificar sua pulseira.

Uma mudança há muito esperada finalmente havia chegado.

Tanto a Arte de Invocar Espada Mágica quanto a Espada Mágica de Madeira ganharam 2 pontos de proficiência cada.

"...Então, realmente precisa ser uma pedra mágica de um monstro que eu derrotei pessoalmente."

Embora sua previsão tenha se provado correta, ele não podia exatamente ficar feliz com isso.

Ele teria preferido confirmar isso em melhores circunstâncias, aventurando-se na floresta com Roy ao seu lado, derrotando um pequeno javali sob o olhar atento de seu pai.

Com um suspiro que carregava um toque de satisfação, Ren ajeitou o Pequeno Javali em seu ombro.

"...Devo testar a Espada Mágica de Madeira em breve também."

Mas, por agora, ele estava voltando para a propriedade. Ele teria que testá-la amanhã.

O dia seguinte marcaria o verdadeiro início de sua jornada na floresta. Com isso em mente, Ren se preparou para o que estava por vir.

***

Na manhã seguinte, ele acordou mais cedo do que o habitual.

Como não havia motivo para voltar a dormir, ele se aprontou e foi em direção à floresta.

"Se você olhar para a Rocha Tsurugi, poderá saber para que direção está virado."

Mireille lhe dera esse conselho útil antes de ele deixar a propriedade.

A Rocha Tsurugi era uma formação rochosa maciça que se projetava como uma espada, algo que Roy já havia lhe explicado antes.

Ficava a cerca de uma hora e meia mata adentro. Ao se lembrar disso, Ren repassou mais uma vez seu objetivo para o dia.

‘Só preciso caçar monstros a trinta minutos da ponte.’

Com a sua decisão tomada, ele entrou na floresta.

Os galhos balançavam, as folhas farfalhavam e o som dos pássaros cantando, misturado ao murmúrio de um rio próximo, chegava aos seus ouvidos.

"Eh…"

Seu pé afundou no chão lamacento e a lama fria e úmida penetrou em seu sapato.

A sensação desagradável o fez fazer uma careta.

Enquanto tentava limpar a lama, ele percebeu algo rastejando pelo seu braço, uma sanguessuga.

Dado o ambiente, não foi surpresa encontrar um ali, mas isso não tornou a sensação menos repugnante.

Felizmente, ainda não tinha se agarrado a ele, então ele facilmente o afastou com um movimento rápido.

"Isso é o que você chamaria de... uma verdadeira escalada, hein..."

Ele murmurou a piada para si mesmo, depois imediatamente se encolheu e olhou para o céu envergonhado.

Sacudindo os últimos resquícios de lama, ele retomou a caminhada — seus passos agora mais pesados, não por exaustão, mas por remorso por ter feito uma piada tão idiota numa hora dessas.

Nesse instante, os arbustos farfalharam violentamente e um pequeno javali coberto de lama irrompeu de lá.

"Bwooo!"

"Sério? Mais um...?"

Disseram que os animais selvagens são naturalmente cautelosos com outros animais, mas este pequeno javali era diferente.

Por outro lado, os monstros nunca foram iguais aos animais comuns.

Ainda assim, ele não esperava que um deles avançasse contra ele com tanta ousadia por conta própria.

Contudo, Ren não hesitou ao erguer a Espada Mágica de Madeira e desferir um golpe certeiro em sua cabeça.

"Bwohh!?"

"E assim, sem mais nem menos, minha primeira batalha do dia terminou."

Dito isso, ele colocou o pequeno javali sobre o ombro. Assim como ontem, uma sensação quente emanou do peito da criatura.

Ao verificar sua pulseira, ele viu que tanto a Arte de Invocar Espada Mágica quanto a Espada Mágica de Madeira haviam ganhado um ponto de proficiência cada.

"Pensando bem, minha mãe disse mesmo que estavam vazios."

Ontem, depois de trazer o Pequeno Javali de volta, ele o entregou a Mireille.

No momento em que começou a processar a informação, ela comentou: ‘A pedra mágica lá dentro está vazia.’

As pedras mágicas eram mana cristalizada que crescia dentro de um monstro à medida que ele amadurecia.

Quando sem mana, elas se tornavam brancas e translúcidas, perdendo todo o seu valor.

Na época, Mireille achou curioso, mas Ren não precisava mais se preocupar com isso—

A partir daquele momento, as pedras mágicas lhe pertenciam.

***

"…OK."

Até aí tudo bem, mas e agora?

Relembrar o que aconteceu ontem era bom, mas carregar um Javali nas costas enquanto lutava não era exatamente prático.

Ao mesmo tempo, deixar tudo para trás também não lhe parecia certo.

Sem outra opção, ele decidiu carregá-la para mais perto da ponte suspensa.

"Ah, qual é..."

No momento em que ele estava prestes a se mover, apareceram mais dois javalis, quase como se estivessem esperando o momento perfeito para atacar.

"Por mim, tudo bem."

Ren agarrou o pequeno javali que carregava e o arremessou contra os recém-chegados.

Por um breve instante, ambos estremeceram de surpresa.

Ele aproveitou a brecha, rapidamente encurtou a distância e derrubou um deles com um golpe rápido na cabeça.

O segundo, percebendo o perigo tarde demais, soltou um guincho patético e tentou fugir.

Se ao menos ele tivesse alguma forma de atacar à distância.

"...Espere. Eu sei, não tenho?"

Isso mesmo, ele tinha planejado testar.

A Espada Mágica de Madeira possuía uma habilidade, provavelmente sua verdadeira força, Magia da Natureza Basica.

Dito isso, ele nunca havia usado magia antes.

Como ele deveria ativá-lo?

Ao relembrar o jogo, Ren se lembrou de ter visto elfos usarem magia para aprisionar inimigos com raízes e vinhas.

No entanto, nada parecia estar acontecendo.

Talvez houvesse um requisito específico de ativação?

Com isso em mente, ele tentou brandir a Espada Mágica de Madeira contra o Pequeno Javali em fuga.

"Bwohh!?"

Quando a espada desceu, partículas verdes brilhantes se espalharam pelo ar, flutuando até o chão.

Então, sem aviso prévio, raízes irromperam da terra, enrolando-se no pescoço do Pequeno Javali o detendo bruscamente.

Em poucos instantes, a criatura perdeu a consciência por falta de ar.

"Uau... Isso é incrível..."

Ao se aproximar para dar o golpe final, percebeu que a presa já estava à beira da morte.

Não querendo prolongar seu sofrimento, Ren ergueu a Espada Mágica de Madeira e rapidamente a abaixou sobre o crânio da criatura.

***

Quando ele retornou à propriedade no final da tarde, Mireille o recebeu com uma expressão atônita.

"V-Você mesmo matou tudo isso!?"

"Sim. Eles continuaram me atacando de forma muito agressiva."

Um total de doze javalis.

Como resultado, tanto a Arte de Invocação da Espada Mágica quanto a Espada Mágica de Madeira ganharam doze pontos de proficiência cada.

"Nem mesmo seu pai traz tantos assim... E-Espere! Como você conseguiu carregar tudo isso!?"

"Carreguei metade nas costas e, quanto ao resto, amarrei com uns cipós que encontrei na floresta e arrastei até que se romperam."

"Eu vejo..."

‘Bem... Essa parte é mentira.’

As trepadeiras não eram algo que ele tivesse encontrado na floresta — ele as havia criado com a Espada Mágica de Madeira.

Foi resultado de experimentações com Magia da Natureza Menor, usando suas memórias do jogo como referência.

Como se constatou, o processo foi surpreendentemente simples.

Tudo o que ele precisava fazer era desejar com muita força, ‘Que as raízes brotem!’, ‘Que as trepadeiras apareçam!’, enquanto brandia sua espada.

‘Não consegui criar mais nada, mas acho que isso já era de se esperar de uma Magia da Natureza Basica.’

Dito isso, as trepadeiras e raízes desapareceram assim que ele dispensou a Espada Mágica de Madeira.

‘Terei que ter cuidado para não abusar disso.’

Ficou claro que usar magia da natureza consumia mana. Ele podia sentir a mesma sensação de exaustão que sentia quando invocava a espada.

Mana era algo que ele precisava cultivar mais.

Assim que Ren reafirmou suas prioridades, Mireille soltou um suspiro de entusiasmo ao inspecionar os Pequenos Javalis.

"Nossa! Essas peles vão valer muito mais do que as que seu pai traz de volta!"

"Hã? Por quê?"

"Não há cortes profundos! Seu pai se esforça ao máximo com a espada, mas sempre acaba danificando as peles. Mas como você está usando uma espada de madeira, não há um único arranhão!"

Embora não demonstrasse exatamente suspeita, seus olhos se demoraram em Ren com um olhar intrigado.

Entretanto, Ren esboçou um sorriso irônico ao ter um pensamento em mente.

‘Espero conseguir manter isso amanhã também.’

Ele ofereceu silenciosamente uma prece à divindade principal Elphen e então esticou as costas com uma respiração profunda.

Foi só então que ele percebeu o quão exausto estava.

Assumir as funções de caça do pai o deixou muito mais exausto do que ele esperava.

‘…Vou ter que continuar me esforçando.’

Com esse pensamento, a determinação tomou conta de sua expressão.

***

No segundo dia, Ren caçou o mesmo número de javalis pequenos que no primeiro.

No terceiro dia, ele aumentou sua pontuação e seus resultados continuavam a melhorar a cada dia que passava.

Ao final do sétimo dia, ele ainda não havia sofrido nenhum ferimento. Era final de tarde quando ele retornou à aldeia.

"Você é incrível, jovem mestre!"

"Como era de se esperar do herdeiro do jovem lorde!"

"Ah, mais um dia produtivo de trabalho, vejo!"

As vozes dos aldeões chegaram aos seus ouvidos quando ele retornava da floresta.

Ultimamente, eles o chamavam com muito mais frequência do que quando ele simplesmente vagava pela aldeia.

E todas as vezes, suas primeiras palavras eram sempre elogios.

Não se sentia mal ao ouvir isso.

Ainda assim, dada a pressão constante que ele exercia sobre si mesmo, não havia risco dele se deixar levar.

‘Considerando isso... eu realmente removi muita coisa, não é?’

Ele respondeu aos aldeões com um aceno educado, depois puxou a armadura para trás para verificar sua pulseira.

[Espada Mágica de Madeira (Nível 1: 97/100)]

Ele não se deu ao trabalho de verificar sua proficiência em Artes de Invocação de Espada Mágica.

Como cada Javalizinho só dava um ponto para cada habilidade, ele sabia que ainda levaria bastante tempo até que a Invocação da Espada Mágica subisse de nível.

Ainda havia um longo caminho a percorrer.

Mas quando sua Espada Mágica de Madeira atingiu o próximo nível, algo emocionante o aguardava.

[Espada Mágica de Ferro (Condições de desbloqueio: Artes de Invocação de Espada Mágica Nível 2, Espada Mágica de Madeira Nível 2)]

A Espada Mágica de Ferro.

A ideia de desbloquear uma nova espada mágica fazia com que cada batalha valesse a pena.

No momento, tocar no nome não exibia nenhum detalhe — provavelmente porque eles só estariam disponíveis após o desbloqueio.

‘Duvido que o ferro tenha alguma habilidade especial, mas... mesmo assim, mal posso esperar.’

Nesse ritmo, ele certamente conseguiria destrancar até amanhã. Só de pensar nisso, uma onda de entusiasmo o invadiu.

Seus passos ficaram mais leves, quase como se ele fosse começar a pular, no entanto, ele ainda arrastava um feixe de javalis amarrados com cipós.

Para os moradores da vila, deve ter sido uma cena bastante bizarra.

Ao se aproximar da mansão, Ren parou abruptamente de passos leves.

“…O que está acontecendo?”

Através de uma janela, ele viu silhuetas correndo freneticamente pelos corredores.

Mesmo à distância, ele as reconheceu: Mireille e a Vovó Rigg.

Algo havia acontecido.

No instante em que esse pensamento lhe ocorreu, ele largou apressadamente o maço de javalis que carregava e correu para dentro.

Mireille estava tão absorta em seus pensamentos que nem percebeu seu retorno. Isso só intensificou a sensação de inquietação de Ren.

Ele a seguiu rapidamente, observando-a subir as escadas apressadamente.

“Mãe! O que houve!?”

No momento em que Mireille estava prestes a entrar no quarto de Roy, Ren colocou a mão sobre a dela na maçaneta da porta.

“R-Ren!? Ah… Certo… Já está na hora de você voltar para casa…”

Ela estava agindo de forma estranha. Ela não estava tentando afastá-lo, mas estava claramente desesperada para entrar no quarto, seu olhar inquieto oscilando de um lado para o outro.

"Espere-"

Antes que Ren pudesse dizer mais alguma coisa, a voz da Vovó Rigg interrompeu.

“Jovem mestre! Afaste-se!”

Ela o empurrou com força, o rosto contraído em uma expressão sombria.

Segurando firmemente um balde de madeira cheio de ervas medicinais recém-preparadas, ela abriu a porta com um estrondo e desapareceu no quarto.

“Senhora, por enquanto fique lá fora! Só vai atrapalhar!”

Dito isso, ela bateu a porta com força.

Ren ficou ali parado, atônito.

Mireille, que estava ao lado dele, estendeu as mãos trêmulas e em seguida se ajoelhou no chão ligeiramente sujo.

Ela puxou Ren para seus braços, abraçando-o com força.

Seu corpo tremia.

“…Aconteceu alguma coisa com o papai, não é?”

O aperto de Mireille se intensificou e seu tremor só piorou.

“Mãe… Tem alguma coisa que eu possa fazer?”

"…Não."

“Qualquer coisa. Se houver algo que eu possa fazer—”

“Não existe. Nem para mim, nem para a vovó Rigg.”

“O quê… O que você quer dizer?”

Ren olhou para ela, desesperado por respostas. Uma única lágrima escorreu dos olhos de Mireille, caindo no chão.

“…Aconteceu logo depois que a vovó Rigg veio vê-lo esta noite. O estado de saúde do seu pai piorou repentinamente.”

Ela se esforçou para manter a voz firme enquanto explicava.

O estado de saúde de Roy deteriorou-se rapidamente, a ponto de mal conseguirem mantê-lo vivo usando as ervas medicinais mais preciosas que possuíam.

Mas essas ervas acabariam até o final da noite.

“Senhora! Por favor, pegue minha caixa de remédios na minha casa! Meu marido saberá onde está!”

Vovó Rigg colocou a cabeça para fora do quarto para chamar Mireille.

“Ren, fique no seu quarto e não atrapalhe a vovó Rigg, ok?”

Mesmo enquanto se esforçava para se manter forte, a dor estampava seu rosto.

Ela abraçou Ren uma última vez antes de sair correndo da mansão.

No instante em que a vovó Rigg desapareceu de volta para o quarto, Ren ignorou suas ordens e a seguiu para dentro.

Não havia como ele simplesmente ficar sentado esperando.

“Vovó Rigg! Não tem jeito de conseguir mais dessas ervas!?”

“Elas não crescem mais por aqui! Costumavam crescer na base da Rocha Tsurugi, mas foram dizimadas durante um inverno rigoroso há mais de uma década!”

Ao contrário de Mireille, sua resposta foi incisiva e repleta de frustração.

É claro que ela estava fazendo tudo o que podia para salvar Roy, ter Ren a questionando agora só estava atrapalhando.

‘As ervas…’

O olhar de Ren recaiu sobre as ervas não processadas ao lado da Vovó Rigg. Felizmente, ele ainda conseguia ver como elas eram antes de serem fermentadas.

Elas tinham folhas distintas em forma de estrela, uma característica inconfundível.

‘…Então é grama Rondo?’

A grama Rondo era uma erva medicinal comum nas lendas dos Sete Heróis.

Até mesmo um protagonista nascido no campo, nessas histórias, poderia comprá-la sem problemas.

Mas a aldeia de Ren não era apenas rural, ficava no meio do nada, um lugar tão remoto que aventureiros e mercadores raramente passavam por ali.

Aparentemente, a aldeia tinha algum estoque, mas não o suficiente.

‘Já usei este produto tantas vezes. Não tem como eu estar enganado.’

Ren não conseguia aceitar a afirmação da Vovó Rigg de que a Grama Rondo havia sido extinta, não até que ele a visse com seus próprios olhos.

Não havia a menor possibilidade dele simplesmente ficar sentado ali sem fazer nada.

Mas o medo o deteve.

Aventurar-se na floresta a essa hora já era suficientemente perigoso.

Além disso, ainda pairava a ameaça iminente daquele monstro e ele teria que ir até a Rocha Tsurugi.

O medo era perfeitamente natural.

‘…Mas este não é o momento para hesitar.’

Se ele não fizesse nada, seu pai morreria. Ren cerrou os punhos, fortalecendo sua determinação.

Ele não disse uma palavra à vovó Rigg ao se virar e sair do quarto.

Olhando pela janela, ele viu sua mãe correndo pela trilha da fazenda.

“…Desculpe, mãe.”

Murmurando um pedido de desculpas discreto para a figura que se afastava, ele voltou o olhar para a floresta, subindo até avistar a silhueta distante da Rocha Tsurugi.

Sem hesitar um instante sequer, ele saiu correndo da mansão.

***

Depois de algum tempo na floresta, as árvores densas começaram a rarear e o caminho foi se abrindo gradualmente.

Até então, ele não havia encontrado um único Javali.

Provavelmente foi devido à sua presença incomumente tensa, talvez as criaturas tenham percebido isso e optado por ficar longe.

Ele continuou avançando por mais alguns minutos.

‘Finalmente…’

Ele saiu da floresta e chegou a uma clareira.

Um pequeno lago estendia-se diante dele e em seu centro erguia-se a Rocha Tsurugi, um enorme rochedo que se projetava para baixo como um pingente de gelo invertido.

A noite já havia caído, mas sob o céu estrelado, a área permanecia surpreendentemente visível.

Mas como ele pretendia chegar à Rocha Tsurugi?

Havia espaço para ficar em pé na sua base, mas a área estava rodeada de água.

O lago não era absurdamente profundo, mas ainda assim era muito mais fundo do que a altura de Ren.

Mesmo para um adulto, seria prudente usar um barco.

No entanto, Ren se lembrou da existência da Espada Mágica de Madeira.

Ele a abaixou criando um caminho de raízes de madeira que levava à Rocha Tsurugi.

Caminhando com cuidado pela ponte improvisada, ele chegou à base da rocha e examinou o chão em busca de qualquer sinal da grama Rondo.

‘Então, na verdade, não está aqui.’

Ele se agarrara a uma réstia de esperança, mas como a Vovó Rigg havia dito, não havia nenhuma à vista.

Ren então voltou seu olhar para cima, em direção à face íngreme e quase vertical do penhasco da Rocha Tsurugi.

Ele agarrou a Espada Mágica de Madeira e a brandiu novamente, desta vez fazendo com que trepadeiras brotassem na superfície da rocha.

“Uau… Isso é muito útil.”

Grato pelo pequeno aumento em suas habilidades físicas, ele iniciou sua ascensão.

Felizmente, ele não sentia medo de altura nem de cair.

Escalar um prédio de dez andares com as próprias mãos teria sido impossível em sua vida anterior.

Reconhecendo esse fato, Ren exalou enquanto subia.

Quando encontrou uma saliência adequada, parou para enxugar o suor da testa e olhou para cima.

‘Isso é-!’

Seus olhos captaram algo perto do topo, provavelmente próximo ao cume.

Balançando na brisa noturna, iluminadas pela luz das estrelas, estavam as folhas de uma planta.

Um sorriso se espalhou inconscientemente pelo rosto de Ren.

“Afinal, não está extinto, Vovó Rigg.”

As folhas de cinco pontas, que lembravam um pentagrama, farfalhavam suavemente ao vento.

Com o ânimo renovado, Ren lançou-se para a frente, agarrando as vinhas mais uma vez.

Sua velocidade de escalada aumentou visivelmente, seus passos se tornaram mais largos e determinados.

Sua respiração ficou um pouco ofegante, mas ele não diminuiu o ritmo.

Após mais alguns minutos de subida constante.

“Sem dúvida! É grama Rondo!”

A planta ainda existia. Um denso aglomerado da planta se agarrava ao topo plano da rocha Tsurugi.

Ren não sabia quanto precisava, mas havia mais do que o suficiente.

Assim que o alívio começou a invadi-lo, ele percebeu algo perturbador.

A uma curta distância da grama Rondo, espalhados pelo chão, estavam os ossos de algum tipo de animal.

Sentindo um leve desconforto, Ren aproximou-se para examiná-los.

Eram os restos mortais de Pequenos Javalis.

Mas ossos não eram as únicas coisas espalhadas por ali.

Entre elas, havia várias peças de joias que brilhavam sob a luz das estrelas.

“……”

O suor formou-se em seu punho cerrado. Os javalis pequenos jamais conseguiriam escalar a Rocha Tsurugi.

E não havia registro de monstros voadores nessa área.

Depois, havia as joias espalhadas. O nome de um certo monstro surgiu na mente de Ren.

‘Preciso me apressar.’

Uma terrível premonição o dominou.

Ele rapidamente recolheu o máximo de capim-rondo que conseguiu e em seguida usou os cipós para descer.

Descendo o mais rápido que ousou, alcançou a base da rocha e examinou os arredores.

Ele pisou na passarela de madeira que havia criado anteriormente e atravessou a água.

Controlando a respiração, enxugou o suor da testa assim que chegou à margem.

‘Preciso sair da floresta...'

Dando um passo cauteloso e urgente, em frente...

“Bwoo…!”

“Gahh!”

Três javalis surgiram de repente, tremendo de medo. Então, sem aviso prévio, eles avançaram diretamente contra Ren.

“Agora, de todas as horas?!”

O comportamento deles, ao mesmo tempo aterrorizado e agressivo, deixou Ren momentaneamente perplexo, mas ele rapidamente se recompôs.

Frustrado por terem chamado a atenção com seus gritos altos, ele brandiu a Espada Mágica de Madeira.

A batalha foi breve.

Os três javalis caíram num instante.

Ren mal lhes dirigiu um olhar, decidido a partir imediatamente—

Mas então o vento noturno cessou abruptamente. Para além da relva ondulante à sua frente, uma sombra enorme surgiu atrás dele.

Embora não pudesse vê-la diretamente, a luz do luar projetava sua silhueta no chão. Ren soube imediatamente o que era.

“Então é por isso que eles estavam fugindo…”

As quatro caudas da sombra balançavam de forma sinistra. Então, ergueu a cabeça em direção ao céu.

“…Então você é o monstro de quem todos estão falando, Sheefulfen.”

Ren se virou para encará-lo.

Como suspeitava, diante dele estava o próprio monstro que temia. Parecia um lobo, com o corpo coberto de pelos brancos como a neve.

Tinha quatro caudas e seis olhos.

Seu corpo era enorme, facilmente do comprimento de três homens adultos em pé, ombro a ombro e possuía duas características particularmente perigosas.

A primeira foi a sua velocidade pura.

A segunda era seu domínio da magia do vento, que usava não apenas para atacar, mas também para roubar os pertences do oponente com rajadas invisíveis.

No jogo, esse monstro era um encontro extremamente raro. Muitos jogadores completaram toda a história sem nunca encontrar um.

‘…As joias lá em cima deveriam ter sido uma pista óbvia.’

Sheefulfen foi classificado como um monstro de nível médio a alto, de Rank D.

Mas não era um exemplar de nível D qualquer, era uma variante especial, uma espécie rara entre as de seu tipo.

Derrotar um deles rendia recompensas valiosas, fazendo com que o desafio valesse a pena.

"Caramba…!"

O adversário era muito perigoso. Sem hesitar, Ren virou-se e disparou, ele tinha apenas um objetivo: escapar.

Para conseguir voltar vivo para sua aldeia.

“—OOOOOOOOOOOONNNN!!”

Um rugido ensurdecedor perfurou seus ouvidos.

Aquele rugido não havia mudado em relação ao jogo. O uivo de um Sheefulfen ameaçando sua presa.

“Hah… hah…!”

Suas pernas pareciam que iam se partir a qualquer momento devido ao uso excessivo, mas ele não parou de correr, nem sequer olhou para trás uma vez.

No entanto, em questão de segundos, as árvores de ambos os lados dele foram violentamente arrancadas por uma forte rajada de vento.

O Sheefulfen, envolto em um redemoinho, já estava sobre ele.

“—!?”

Ren mal conseguiu se esquivar, mas o impulso o fez cair no chão.

Enquanto se esforçava para se levantar, ele estreitou os olhos para o Sheefulfen, que havia parado em frente a uma árvore logo adiante.

"Foi mal. Não vou chegar perto do seu ninho de novo, tá bom?"

Um Sheefulfen com a aparência de um lobo enorme, diferente de tudo que ele já tinha visto.

Ao vê-lo pessoalmente, ele ficou impressionado com seu tamanho colossal.

Sua pelagem prateada irradiava uma aura majestosa, e as quatro caudas que balançavam atrás dele exalavam uma presença intensa, muito além da de qualquer lobo comum.

Seis olhos o encaravam fixamente, cada um deles repleto de um olhar predatório, fazendo o coração de Ren disparar de desconforto.

“Tem um monte de javalis por aí, né? Vai atrás deles.”

O Sheefulfen não respondeu.

Ren apertou com mais força a espada mágica de madeira que tinha na mão, sabendo que provavelmente era inútil.

Ainda assim, ele continuou falando com a fera, tentando manter a calma. Os olhos carmesins do Sheefulfen brilharam enquanto os direcionava para ele.

Deu um passo silencioso para a frente, curvando ligeiramente as costas e mostrando as presas.

"…Mova-se."

O olhar de Ren tornou-se cortante e hostil.

Ele não tinha tempo para isso.

Mais do que o medo de enfrentar um inimigo formidável, ele temia não conseguir voltar a tempo com as ervas para seu pai.

“Grrr…”

Mas o Sheefulfen não se moveu. Em vez disso, soltou um rosnado lento e ameaçador. O ar ao redor de Ren se contorcia com rajadas caóticas, envolvendo-o.

‘Magia do vento—!’

O Sheefulfen manipulava o vento, formando braços de ar invisíveis para atacar. Ao pressentir o ataque, Ren torceu o corpo e saltou para trás, girando no ar para se esquivar.

Mas uma dor aguda percorreu sua bochecha.

Ao tocar o rosto, seus dedos ficaram manchados de sangue fresco.

A ficha caiu para ele instantaneamente.

‘Este não é um monstro que eu deveria estar combatendo!’

Fugir também não era uma opção, ele já sabia que escapar era praticamente impossível.

O que significava que, ele não tinha outra escolha a não ser encarar a situação.

Naquele momento, ele percebeu algo.

‘…Sua perna… está ferida?’

Ren percebeu que o Sheefulfen estava sutilmente favorecendo uma de suas patas dianteiras.

Um profundo corte marcava seu membro.

Ele não demorou muito para descobrir a causa.

‘Pai... Isso é obra dele.’

Seu pai havia cumprido seu dever como cavaleiro. Foi por isso que ele conseguiu escapar.

E por que o Sheefulfen não atacou a aldeia imediatamente? Por causa de seus ferimentos.

A tensão que envolvia o corpo de Ren diminuiu ligeiramente.

‘Mesmo assim, não me deixa ir tão facilmente.’

Se ele virasse as costas agora, sua vida lhe seria arrancada num instante.

Sua única opção era usar magia natural para obstruir o Sheefulfen, mantendo distância e seguindo em direção à vila, mas isso também era mais fácil dizer do que fazer.

Tão perto da Rocha Tsurugi, escapar como seu pai fez seria impossível.

‘E minha única arma é uma espada mágica de madeira... Como vou lutar com isso?’

Sua mente aguçada pela crise, buscou incansavelmente uma solução. Ele relembrou a vez em que lutou contra um elfo em A Lenda dos Sete Heróis I.

Essa batalha também ocorreu em uma floresta.

Naquela época, ele havia lutado contra a magia natural do elfo e contra o próprio ambiente.

Mas ao contrário dele, ele só conseguia usar uma magia natural fraca, limitada a raízes de árvores e trepadeiras.

“…Mesmo assim, não posso simplesmente desistir!”

“Grrr!?”

O Sheefulfen ficou momentaneamente enredado por raízes e trepadeiras.

Ren não hesitou, avançou rapidamente aproveitando o momento.

Com toda a sua força, ele brandiu sua espada mágica de madeira contra o crânio do Sheefulfen.

“Caramba…! Como isso é difícil!?”

O impacto provocou um choque doloroso em suas mãos. O Sheefulfen soltou um grito estridente, seus seis olhos flamejando de fúria assassina.

Mas Ren não hesitou.

Ele empunhou a espada, pronto para atacar novamente.

"O que-!?"

A espada mágica de madeira se estilhaçou da empunhadura para cima.

O próprio cabo se dissolveu em névoa.

Ao mesmo tempo, as raízes e os cipós que prendiam o Sheefulfen também desapareceram.

‘Será que quebrou com o último impacto…? Não, posso simplesmente invocá-lo novamente!’

A espada era uma arma invocada, poderia ser convocado novamente.

Concentrando-se, Ren tentou invocá-lo como de costume e reapareceu com facilidade.

Mas, ao mesmo tempo, uma súbita dor de cabeça pulsava em seu crânio.

‘Porque quebrou…?!’

O custo de mana foi muito maior do que o normal.

E para piorar a situação, o Sheefulfen já estava se preparando para contra-atacar.

“Gwoooooh!”

Felizmente, o impacto na cabeça deixou sequelas. Cambaleou ligeiramente ao dar o bote, com as mandíbulas bem abertas.

Mas mesmo desacelerado, seu ataque ainda era mortal.

“Gh…!”

Ren mal conseguiu se esquivar, rolando pelo chão. A terra úmida grudou em seus lábios, enchendo sua boca com um gosto amargo.

Ele cuspiu e se obrigou a ficar de pé, recuperando o fôlego.

‘Bater na cabeça de novo... não é realista.’

A manutenção das raízes e dos cipós consumia muita mana.

Quebrar repetidamente a espada mágica de madeira era insustentável.

E a magia do Sheefulfen era implacável.

Era inútil.

O enfurecido monstro atacou mais uma vez.

Ren bloqueou cada ataque com sua espada mágica de madeira, mantendo-se firme desesperadamente.

Quanto tempo havia passado?

Seu corpo vacilou devido ao cansaço.

Foi então que...

“Gah—!?”

Como uma tempestade furiosa, o Sheefulfen atacou. Suas presas cravaram-se em seu flanco.

A armadura de couro mal o deteve. Uma dor lancinante o consumiu enquanto o sangue espirrava no ar.

Ren contorceu o corpo, conseguindo se desvencilhar antes que a besta pudesse dilacerá-lo ainda mais.

Seu lado estava encharcado de sangue carmesim.

‘Ervas medicinais! Não, eu não posso…!’

Ele cerrou os dentes, as ervas eram para o pai dele.

Ele não podia desperdiçá-las.

Mas, nesse ritmo, ele desmaiaria antes de chegar à aldeia.

Ele precisava de algo, qualquer coisa, para mudar o rumo da situação.

Enquanto enxugava o suor da testa, seus olhos pousaram no cristal incrustado em sua pulseira.

Ele se lembrou de ter verificado o status no início daquela noite.

[Espada Mágica de Madeira (Nível 1: 97/100)]

E, mais importante ainda;

[Espada Mágica de Ferro (Condição de desbloqueio: Artes de Invocação de Espada Mágica Nv. 2, Espada Mágica de Madeira Nv. 2)]

Só mais três javalis e ele já os havia derrotado anteriormente.

Ele simplesmente não tinha tido a chance de absorver as pedras mágicas deles.

“Gwaaaah!”

O Sheefulfen rugiu.

Ren, agarrando o ferimento ardente, obrigou-se a correr.

“Hah… hah… Fique aí mesmo…!”

Ele entrelaçou inúmeras vinhas ao redor da besta, ganhando tempo enquanto corria em direção à Rocha Tsurugi.

Repetidamente, ele conteve o Sheefulfen com suas raízes emaranhadas.

Sua mana estava quase esgotado e sua visão ficou turva devido à perda de sangue, mas ele não tinha escolha.

Com um esforço desesperado, Ren obrigou suas pernas a continuarem se movendo. Finalmente, ele a viu: a Rocha Tsurugi, cercada por um lago.

E lá estavam eles, os três javalis que ele estava procurando. Confirmando a presença deles, Ren reuniu o que lhe restava de forças.

Ele os alcançou, bem a tempo.

Antes que o Sheefulfen pudesse atacá-lo, Ren chegou ao lado dos Pequenos Javalis.

Estendendo a mão com a pulseira, ele soltou um grito.

"Aaaaaaaahhhhhh!"

Uma, depois duas. Finalmente, o poder da terceira pedra mágica foi absorvido pela pulseira, fazendo com que o orbe de cristal incrustado emitisse um brilho fraco.

Os olhos de Ren se voltaram para a pulseira, sem perder de vista as palavras que apareceram.

[Espada Mágica de Ferro (Nível 1: 0/1000)]

Sua nitidez aumenta à medida que sobe de nível.

Ren entrou em pânico, imaginando se a espada possuía algum poder especial, mas ele só podia rezar para que ao menos fosse mais afiada do que uma lâmina comum.

"Groooooooh!"

Sem olhar para trás, Ren jogou fora sua espada mágica de madeira.

A arma passou raspando pela testa do Sheefulfen enquanto ele se esquivava, aterrissando logo atrás de suas quatro caudas.

"Graaaaaaaaaaaah!"

A fera enfurecida mostrou suas presas, abaixando a postura e mirando diretamente na garganta de Ren.

Suas garras afiadas como lâminas brilhavam sob a luz das estrelas enquanto erguia as duas patas dianteiras.

Então vinhas brotaram da espada mágica de madeira que jazia atrás do Sheefulfen, enrolando-se firmemente em torno da parte superior de seu corpo.

Mesmo assim, a fera avançou com intenção assassina.

Ren encarou a criatura de frente, seus olhos ardendo em espírito de luta.

"Este é o meu!"

Nesse instante, a espada mágica de madeira desapareceu e o ar ao lado de Ren se abriu.

Da fenda emergiu uma espada de ferro negro maciço, sua cor intacta da empunhadura à ponta.

"!?"

Os cipós que prendiam o Sheefulfen desapareceram e a súbita liberdade deixou o monstro momentaneamente perplexo.

Ren aproveitou a oportunidade, abaixando a Espada Mágica de Ferro e assumindo uma postura de combate, com a ponta apontada para cima.

"Esta é a minha última força!!"

Sem hesitar, ele cravou a lâmina fundo na boca aberta da besta.

A espada atravessou seu crânio endurecido por dentro, sua ponta ensanguentada brilhando no ar noturno.

Um tênue clarão azulado de espada persistiu em seu rastro.

"Guh...aaah..."

O lobo branco soltou um uivo fraco.

Seus seis olhos perderam o brilho e, com um último suspiro, o corpo da besta ficou imóvel.

Nesse mesmo instante, Ren sentiu o poder da pedra mágica sendo atraído para sua pulseira.

"Eu... fiz isso..."

E então, ele desabou.

Sua visão ficou turva, o mundo ao seu redor desaparecendo na escuridão.

Mesmo assim, ele tentou se levantar usando a Espada Mágica de Ferro como apoio, mas seu corpo se recusou a obedecer.

A espada desapareceu, seguida pela pulseira.

Deitado de bruços no chão, as pálpebras de Ren se fecharam lentamente.

“Pai, mãe... Me desculpem.”

Murmurando essas palavras, ele perdeu a consciência.

***

Nem alguns minutos haviam se passado quando o som de cascos ecoou ao redor da Rocha Tsurugi.

"O rugido veio desta direção Capitão!"

"O que é?"

"Perto do lago! Tem um monstro caído e... um menino?"

Chegaram cinco cavaleiros da família Clausel.

Correndo em direção a Ren, que estava caído, e ao Sheefulfen morto ao seu lado, eles desmontaram em uníssono.

O cavaleiro conhecido como Capitão ajoelhou-se e ergueu o corpo de Ren.

"Ele está vivo... Graças a Deus."

Mas o sangue continuava a jorrar dos ferimentos de Ren sem parar.

Percebendo a urgência, o Capitão tirou um pequeno frasco do bolso e despejou o líquido sobre o abdômen de Ren.

O líquido emitia um brilho azul fraco, diminuindo o sangramento.

Mesmo assim, não foi suficiente.

Determinado, o Capitão desembainhou sua espada e cortou as roupas de Ren em tiras, usando-as como curativos improvisados para pressionar contra seus ferimentos.

Entretanto, os outros cavaleiros exclamaram em choque.

"Isto... Isto é um Sheefulfen!?"

"Capitão! É um Sheefulfen! O monstro não identificado é um Sheefulfen!"

Ao ouvir isso, os olhos do capitão se arregalaram em descrença.

"Impossível... Uma criança tão jovem não conseguiria derrotar uma fera dessas sozinha!"

Mas não havia tempo para espanto. O capitão sabia que Ren precisava de tratamento imediato.

Ajudando Ren a montar em seu cavalo, ele se preparou para partir.

Foi nesse momento que um feixe de ervas medicinais escorregou do bolso de Ren, chamando a atenção de um dos cavaleiros.

“Capitão, será que este rapaz é aquele de quem o comandante falou…?”

Os olhos do capitão se arregalaram em compreensão.

“Sim… Essa criança deve ser o único filho homem da família Ashton. Algo deve ter acontecido com o pai dele. Isso explicaria por que ele entrou na floresta sozinho em busca da Grama Rondo.”

“Nesse caso, parece que nossa chegada em tempo hábil não foi em vão.”

“Sim, senhor. Alguém, leve os restos mortais de Sheefulfen! Vamos levar esse menino de volta para a propriedade de Ashton imediatamente!”

O som dos cascos ecoou mais uma vez.

O ruído rítmico, que perturbara brevemente a tranquilidade habitual da aldeia, aproximava-se agora firmemente da propriedade Ashton.

Eles cavalgaram pela floresta, atravessaram a ponte suspensa e passaram pelas terras agrícolas até que a mansão surgiu à vista.

Finalmente, o cavalo que transportava Ren parou diante da propriedade.

“Somos cavaleiros de Clausel! Tem alguém aí?!”

O capitão desmontou e cuidadosamente ajudou Ren a descer do cavalo enquanto gritava.

Ao ouvir a voz dele, Mireille saiu correndo de casa, com o rosto tomado pelo medo.

“Você é… E-Espere, Ren?!?”

“Não há tempo para cumprimentos! Levem-nos imediatamente ao quarto dele!”

“S-Sim…! Por aqui!”

Ren foi levado rapidamente para seu quarto, onde os cavaleiros imediatamente começaram a tratar seus ferimentos.

Eles haviam sido treinados em técnicas de cura para tratar ferimentos sofridos em batalha.

Mireille, sem poder ajudar, foi conduzida para fora da sala e deixada parada no corredor, atordoada.

Foi então que o capitão se aproximou dela.

“Peço desculpas pela franqueza da minha pergunta, mas… aconteceu alguma coisa com Lorde Ashton?”

“Sim. O estado de saúde do meu marido piorou repentinamente…”

O capitão já suspeitava disso, levando a mão ao bolso, ele retirou a Grama Rondo.

“Isso estava em posse do seu filho. Ele o guardava como se fosse seu tesouro mais precioso.”

“Ren… Não… Você não fez isso…”

Ao compreender tudo, Mireille desabou em lágrimas. Suas pernas quase cederam, mas as palavras do capitão a mantiveram de pé.

“Minha senhora, por favor… não deixe que os esforços do seu filho sejam em vão.”

Mireille deu um suspiro de espanto, seus pensamentos se voltando para Ren, que ainda estava sendo tratado atrás daquela porta fechada.

Mordendo o lábio, ela se afastou do quarto e sussurrou:

“Ren… já volto.”

Dito isso, ela saiu apressada para levar a grama Rondo para Roy.