De volta À academia do Reino de Holfort, Livia e Cleare estavam reunidas no quarto de Angie no dormitório feminino. As três mulheres estavam sentadas ao redor de uma mesa confirmando o conteúdo da correspondência mais recente de Leon.
O cabelo loiro dourado trançado de Angie brilhava sob a luz.
Sua expressão estava inicialmente animada, mas logo ficou turva quando ela leu a carta de Leon. Seus olhos vermelhos, sempre brilhantes de determinação, encaravam fixamente o papel em suas mãos.
“As coisas na República estão tão turbulentas como sempre. Não faz muito tempo que eles sofreram outro escândalo e agora há rumores de uma rebelião?”
Angie cruzou suas pernas finas e cruzou seus braços sob seu amplo busto. Como a carta de Leon contava, os insurgentes na República estavam ganhando força. Essa era uma informação que nem mesmo o Reino poderia ignorar.
Livia apertou as mãos sobre os próprios seios grandes enquanto se preocupava com a segurança de Leon. Seus cabelos sedosos e cor de linho penduravam como uma cortina em volta do rosto e escondiam qualquer expressão que ela tivesse.
“É sempre uma coisa atrás da outra. Ano passado não foi diferente.”
Angie relembrou os eventos do ano passado — e a série de escândalos que assolaram o Reino — e suspirou. Ela sabia que viver no passado seria de pouca utilidade, então ela focou sua concentração nos distúrbios na República.
"Parece que as Seis Grandes Casas estão desdenhando a ameaça que esses rebeldes representam" ela disse.
"Leon pensa diferente, mas duvido que faria algum bem mesmo se entregássemos um aviso por canais diplomáticos."
Se o Reino perguntasse sobre a agitação na República, eles provavelmente responderiam: ‘Você não precisa se preocupar com cada pequeno assunto. Estamos bem cientes do que acontece em nossas próprias fronteiras.’
Além disso, Leon não havia pedido que eles interviessem em seu nome; o conteúdo de sua carta simplesmente os preocupou o suficiente para que se sentissem impelidos a agir.
Livia levantou o queixo, seus olhos azuis claros se enchendo de lágrimas não derramadas.
“Você acha que haverá outra guerra?”
“Quem pode dizer?” Angie deu de ombros.
Era difícil para ela fazer qualquer julgamento, já que ela não estava presente no último grande conflito.
“Não tenho ideia. Embora eu acredite que devo relatar isso a Sua Majestade — só para ficar do lado seguro. Estamos falando de Leon, pessoal! Tenho certeza de que ele ficará bem... desde que não se envolva muito, isto é, e mantenha Luxion com ele para garantir que ele volte em segurança.”
Os ombros de Lívia estremeceram ao ouvir a menção de Luxion.
Angie imediatamente tomou nota e franziu a testa.
“Qual é o problema?”
“N-não, não é nada.”
“Você tem certeza? Eu também estou preocupada com ele, sabia, mas Leon é forte. Além disso, Luxion está lá com ele e certamente impedirá Leon de fazer algo muito imprudente.”
Cleare — um robô parecido com Luxion, diferindo apenas pela coloração branca e lentes azuis nos olhos — manteve-se em silêncio até aquele momento, mas as palavras de Angie a desagradaram o suficiente para quebrá-lo.
“Não tenho tanta certeza sobre isso. O Mestre tem o hábito de ser imprudente mesmo com Luxion o acompanhando. Também há muito mais motivos para inquietação agora do que antes.”
A expressão de Livia se desintegrou em ansiedade.
“Você talvez queira dizer Ideal?”
“Ah? Então ele está pesando na sua mente também? Isso mesmo. Ele está essencialmente o mesmo tipo de entidade que Luxion e eu, mas sua presença ali me deixa desconfortável.”
Cleare fez uma pausa antes de dizer,
“Embora eu duvide que ele esteja ansioso para fazer inimigos de nós, então provavelmente ficará tudo bem.”
Angie franziu a testa.
“Não nos assuste assim. De qualquer forma, Leon nos pediu um favor. Cleare, eu gostaria que você se preparasse para minha iminente jornada ao palácio.”
“Pode apostar! É minha hora de brilhar finalmente!”
“Livia, você a ajuda… Livia?” Angie percebeu que a ansiedade de sua companheira não havia diminuído.
Cleare parecia preocupada com a garota também. Ela se aproximou de Livia e olhou para seu rosto.
“O que há de errado? Não está se sentindo muito bem? Estranho... Você parecia bem esta manhã.”
Livia abriu a boca lentamente.
“Cleare, eu gostaria que você respondesse uma pergunta para mim.”
"O que é?"
“Você não iria... trair o Sr. Leon, iria?”
Angie deixou sua cadeira e se aproximou de Livia, colocando uma mão em seu ombro. Ela estava claramente tendo dificuldade em discernir o que levou Livia a perguntar tal coisa.
“O que realmente está te incomodando Livia?”
“Quero deixar isso claro agora.” Livia olhou diretamente para Cleare.
Seu rosto estava determinado; ela não seria desencorajada por nenhuma resposta sem entusiasmo ou tentativa de desviar a atenção.
“Trair o Mestre?” Cleare respondeu despreocupadamente.
“Isso nem é uma opção para mim pessoalmente e mesmo que fosse, seria uma tarefa difícil para uma IA como nós. Você não precisa se preocupar com um de nós apunhalando-o pelas costas. Não poderíamos se quiséssemos.”
Se Angie achava que Livia ficaria mais tranquila com aquela resposta, sua próxima pergunta pôs fim a isso.
“E Lux então? Você pode jurar que ele nunca trairia o Sr. Leon?”
“Calma” Angie insistiu.
O comportamento estranho de Livia era um motivo significativo de preocupação.
“Com o que você está tão preocupada? Fale comigo.”
Ela tinha certeza de que Cleare daria a mesma resposta mais uma vez. Infelizmente, a resposta de Cleare não foi imediata. Houve uma pausa, como se ela estivesse considerando a melhor forma de responder.
“Eu não sou Luxion e há muita coisa que eu desconheço sobre que tipo de programação ele tem — ou talvez, mais apropriadamente, que tipo de ordens ele recebeu. Não posso jurar que ele não se tornaria um traidor. Então, suponho que devo dizer que há uma chance diferente de zero de que ele possa trair o Mestre.”
Livia abaixou o olhar.
“Obrigada por responder honestamente.”
Angie ficou em choque. Ouvir que Luxion poderia trair Leon a deixou sem palavras.
Cleare acrescentou:
“Bem, assumindo que nada extremamente fora do comum aconteça, não o vejo mudando de lado — mas, como eu disse, isso é assumindo que nada de louco aconteça. Contanto que os dois não entrem em uma briga, não temos nada com que nos preocupar!”
***
O Templo da Árvore Sagrada estava localizado no coração da República Alzer. Era um lugar sagrado aninhado na base das raízes da árvore e era onde os líderes das Seis Grandes Casas se reuniam para debater políticas.
O tópico na boca de todos dessa vez eram os movimentos suspeitos dos jovens aristocratas e soldados. O papel de Albergue era presidir essas conversas como presidente.
“Há aqueles entre nós tramando rebelião. A maioria parece ser uma parte de jovens aristocratas possuindo brasões de classificação mais baixa, embora muitos mais entre eles sejam soldados sem brasão.”
Ao contrário de outras nações do mundo, os aristocratas de alto escalão na República tinham uma vantagem esmagadora sobre seus colegas em virtude de seus brasões de alto escalão. Em uma batalha entre os dois lados, a Árvore Sagrada concederia poder à nobreza de alto escalão enquanto recusava o chamado de seus inferiores.
Por essa razão, a maioria dos gênios por trás dessas tentativas de rebelião vinham de uma das Seis Grandes Casas. Esses esforços invariavelmente terminavam em fracasso, já que os conspiradores acabariam enfrentando o número esmagador das Grandes Casas restantes e seus aliados.
Os outros líderes das Grandes Casas trocaram olhares entre si.
“Quais são seus pensamentos?”
“Alguns jovens impulsivos se precipitaram e tomaram a decisão errada. É só isso, não é?”
“Eles podem tentar levantar armas contra nós, mas não conseguirão vencer.”
Os líderes desprezaram a ameaça, dada a vantagem esmagadora oferecida a eles por suas posições. Eles continuaram a reunião, falando tão casualmente quanto alguém falaria sobre o clima.
Uma figura solitária entre eles parecia gravemente preocupada: o líder da Casa Druille, Fernand.
“Vocês não estão levando isso muito a sério?” ele disse.
“Temos estudantes de intercâmbio do Reino entre nós. Vocês podem honestamente dizer que eles não vão se envolver?”
No momento em que ele mencionou o Reino, os rostos dos outros líderes ficaram amargos. A razão para isso era simples: Leon. Desde que ele veio para a nação deles como um estudante de intercâmbio, ele fez uma bagunça de coisas provocando brigas com as Grandes Casas.
Os líderes que estavam tão insatisfeitos com suas palhaçadas também perderam para ele em inúmeras ocasiões.
O líder da Casa Barielle, Bellange, rosnou:
“Se ele jogasse sua sorte com eles, seria um verdadeiro espinho no nosso lado. Devemos fazer um movimento antes que isso aconteça?”
Sentindo que havia encontrado um apoiador, Fernand se moveu para capitalizar e obter concordância do resto dos líderes.
“Sim, acho que devemos imediatamente tomar sua aeronave e armadura sob nossa custódia. Dessa forma, podemos ter certeza de que os rebeldes não ganharão nenhuma vantagem de poder desnecessária.”
Albergue geralmente era do tipo que intervinha nessas ocasiões, mas não era ele quem expressava discordância agora. Isso veio do líder da Casa Feivel, Lambert.
"Vamos lá, isso parece uma ação extrema a se tomar."
Todos os olhos se voltaram para ele. Não se poderia chamar esse homem de inteligente ou sábio, nem mesmo como bajulação. Ele era o mais vulgar e ostentoso entre eles, e havia brigado com Leon no passado apenas para sofrer perdas devastadoras. Fazia sentido que ele fosse o primeiro a defender a subjugação de Leon e seus companheiros.
Albergue achou sua posição suspeita.
“Lorde Lambert, você se importaria em elaborar sua posição?”
“É simples na verdade. Não importa o quanto esses dissidentes de baixa patente tentem se opor a nós, eles cairão diante do poder de nossas Grandes Casas.”
Era de conhecimento comum dentro da República que aqueles que tinham brasões menos poderosos não tinham esperança de resistir àqueles que tinham brasões mais poderosos.
Lambert, no entanto, não era normalmente alguém que empregava tal pensamento lógico nessas discussões. Albergue ficou incomodado com sua postura incomum e ele não era o único.
“E-ele tem razão.”
Lambert sorriu.
“Portanto, esses insurgentes devem ter algum tipo de plano secreto na manga, certo?”
Ele não demonstrou pânico, apesar da ameaça de uma rebelião.
"Se eles pretendem roubar as armas do Reino para lutar contra nós, então mais uma razão para não nos preocuparmos. Você realmente acha que o Herói do Reino de Holfort deixaria tão facilmente que sua aeronave fosse arrancada de baixo dele?"
Fernand acariciou o queixo.
“Eu acredito que sua própria casa conseguiu roubar a aeronave dele antes, não?”
“E ele retaliou da forma mais devastadora imaginável, sim. Vamos supor que os rebeldes fizeram um refém para coagi-lo a se juntar ao lado deles. explodiria na cara deles; ele nunca deixaria isso passar. Alguém de vocês discorda?”
Havia algo terrivelmente estranho sobre Lambert hoje, isso era certo, e Albergue não estava sozinho nessa visão. Suas palavras, no entanto, os convenceram de que não havia necessidade de apreender as armas de Leon.
Fernand foi o único a expressar discordância.
“Se os estudantes de intercâmbio planejam se opor a nós, perderemos nossa chance de agir se permanecermos complacentes agora!”
Lambert deu de ombros.
“O presidente parece amigável o suficiente com eles, então tenho certeza de que podemos pedir para ele ficar de olho. É um pedido justo, presidente?”
Albergue hesitou por um momento antes de concordar.
“Eu falarei com ele pessoalmente.”
“Bem, então nossa discussão está encerrada” disse Lambert, aparentemente ansioso para passar para um tópico diferente.
“Vamos prosseguir para outros assuntos.”
Ele estava tão animado que os outros presentes se perguntaram se ele não seria uma pessoa completamente diferente.
***
Terminada a reunião, Lambert foi para os aposentos pessoais que ele mantinha dentro do Templo da Árvore Sagrada. Serge o esperava lá, com Ideal a tiracolo, sentado em um sofá com um copo na mão.
Ele se serviu de um pouco do álcool que Lambert havia escondido ali, o que enfureceu o homem, mas ele conteve sua raiva o melhor que pôde.
“Fiz o que você pediu. Convenci os outros a ignorar o medo de uma rebelião.”
Era uma visão estranha para um homem tão orgulhoso quanto Lambert agir de forma tão subserviente a um homem à beira de ser deserdado pelos Raults. Serge parecia completamente alheio a essa ironia.
"Hah. Você não teria conseguido nada sem Ideal sussurrando em seu ouvido."
Lambert cerrou os dentes.
“Urgh! M-minhas mais humildes desculpas, Guardião.” Serge falou a verdade.
Ideal havia treinado Lambert nos bastidores sobre exatamente o que dizer. Ideal voltou seu olhar para Serge.
“Vamos fazer com que Lambert continue a desenhar as Grandes Casas longe do nosso exército rebelde. Podemos usar esse tempo extra para prosseguir com nossos preparativos finais.”
Serge reagiu ao esquema do robô com desdém.
“Estamos indo a passo de caracol aqui. Podemos muito bem fazer nosso movimento agora e ir para a batalha, certo? Precisamos mesmo fazer ainda mais trabalho de base?”
“Você não deve subestimar nossos oponentes. A República pode ser uma coisa, mas Leon representa um perigo real enquanto Luxion estiver com ele. Eu gostaria que você esperasse até que eu tenha criado uma maneira de trazer Luxion completamente para o nosso lado.”
“…Tem certeza de que consegue fazer isso?”
Lambert se mexeu inquieto ao fundo, mas os dois o ignoraram.
“Acredito que posso persuadi-lo com um pouco mais de esforço e então o sucesso da revolução estará praticamente garantido.”
“Então esse tal de Luxion é mais forte que você?” Serge perguntou.
“Ele é uma nave migrante, construída há muito tempo para transportar pessoas para a segurança do espaço sideral; tal trabalho exigia poder extremo equivalente ao de uma nave de guerra para que ele pudesse ver seu objetivo concluído. Além do mais, ele estava equipado com o canhão principal mais forte que nossa tecnologia na época podia fabricar. Em batalha de canhão — ou melhor, em uma batalha estritamente entre nossas naves principais — sou inferior a ele.”
Os velhos humanos investiram tudo o que tinham na criação de Luxion, esperando que uma nave pudesse ajudá-los a escapar da aniquilação.
“Parece um pé no saco” disse Serge.
“Bastante.”
“Por que não encontrar uma maneira de destruí-lo enquanto ele está com a guarda baixa?”
Ideal hesitou por um momento antes de responder,
“Não posso recomendar essa opção. Gostaria de manter relações amigáveis com ele, se possível.”
Não vendo um fim à vista para essa conversa, um nervoso Lambert interrompeu:
"Uh, hum, Guardião? Você realmente vai manter sua promessa para mim, não é?"
Serge virou seu olhar para Lambert. O homem era tão patético quanto parecia — ansioso para trair seus companheiros líderes em seu desespero para salvar sua própria pele. Foi assim que ele se aliou a Serge.
“Sim. Os Feivels continuarão sendo uma Grande Casa mesmo após a rebelião acabar” disse Serge.
“E-eu sou muito grato.”
Serge pensou consigo mesmo:
‘É realmente triste pensar que alguém assim esteja ditando o futuro do nosso país.’
Serge só fez um aliado desse homem porque ele previu com precisão que Lambert daria as costas para se proteger. A competência de Lambert não foi levada em conta.
Tudo o que ele esperava que Lambert fizesse era prolongar a discussão do conselho e interromper qualquer coisa que eles pudessem fazer que não fosse a seu favor e ele não era especial nesse aspecto.
Qualquer um serviria para esse trabalho, exceto Albergue.
‘Não importa o quão patético Lambert seja. Albergue, vou fazer você se arrepender de ter me abandonado por aquele canalha.’
***
Cansado dos dias passados procurando por Yumeria, Kyle estava dormindo profundamente em sua cama na propriedade de Marie quando de repente acordou sobressaltado.
"Mãe!"
Ele havia se esforçado muito além de seus limites, o que o deixou terrivelmente emaciado. Antes um garoto atrevido com pele de aparência saudável e aparência imaculada, seu cabelo agora estava desgrenhado, sua pele seca e rachada.
Seu quarto também estava em um estado miserável, com itens e lixo espalhados aleatoriamente e Kyle só usava o espaço para dormir. As cortinas estavam bem fechadas e bloqueavam sua consciência do tempo.
Quando acordou, ele embalou a cabeça nas mãos enquanto as lágrimas escorriam por suas bochechas.
“Se ao menos… se ao menos eu não tivesse dito isso a ela.”
Uma batida soou na porta enquanto ele se afundava em seus arrependimentos.
Kyle estremeceu a princípio, mas decidiu não atender. Ele não estava com vontade de ver ninguém agora: Marie e Carla estavam preocupadas com ele e até mesmo Julius e sua comitiva pareciam preocupados.
Leon não era de dizer essas coisas em voz alta, mas ocasionalmente ele trazia presentes. Uma vez, quando Kyle desmaiou de exaustão, Leon foi quem veio buscá-lo.
‘Sei que só estou causando problemas para todos, mas preciso salvar a mãe.’
Mesmo que os outros o expulsassem da mansão, ele pretendia permanecer lá. a República e continuar procurando por sua mãe.
Novamente, alguém bateu na porta. Após um longo período de silêncio, uma voz chamou do outro lado:
“Kyle, eu sei que você está aí. Por favor, saia.”
Era Cordelia.
Ela serviu Angie de perto no Reino de Holfort até que os Redgraves a enviaram para cá. Ela era uma serva de primeira linha entre as servas e, na verdade, vinha de uma casa nobre. O lado ruim era sua natureza rigorosa e implacável.
Kyle se preparou e saiu de sua porta. Cordelia esperava lá com uma cara de pôquer perfeita.
“Você pode me explicar por que você parece tão desleixado? Além disso, você cheira horrivelmente. Preparei uma refeição para você no refeitório — depois que terminar sua refeição, por favor, vá ao banho.”
“Uh, erm…” Kyle limpou a garganta.
Ele pretendia recusá-la, mas Cordelia não lhe deu oportunidade; ela o agarrou pelo braço e o puxou para o refeitório. Quando chegaram, ela apontou para a comida.
“Você deve se banhar depois de limpar seu prato. Está claro?”
“S-sim” ele respondeu hesitantemente.
Kyle não se importava nem com a comida nem com o banho, mas dizer isso não faria Cordelia ceder. Ele desistiu e decidiu comer.
Assim que Cordelia saiu do quarto, Kyle deu uma olhada rápida no relógio.
"É meia-noite..."
Ele havia perdido completamente a noção do tempo.
Kyle fez como instruído e terminou sua refeição antes de tomar banho.
Cordelia estava esperando por ele quando ele surgiu, desejando falar com ele sobre algo. Ela o levou de volta para a sala de jantar, onde se sentaram um de frente para o outro. Ele esperava que ela trouxesse à tona seu comportamento recente.
‘Eles provavelmente vão me demitir. Vou ter que procurar trabalho em outro lugar enquanto continuo minha busca pela Mãe.’
Enquanto ele se perdia em suas reflexões sobre quais ações tomaria no futuro, Cordelia suavizou seu tom duro anterior.
“Eu entendo que você esteja preocupado com o desaparecimento da Srta. Yumeria. Mas eu pergunto a você, de que adiantaria você preocupar todo mundo até a morte?”
“Eu vou embora se estou incomodando todo mundo tanto assim. Tenho que procurar pela Mãe.”
Cordelia balançou a cabeça.
“Ninguém está pedindo para você ir embora.”
“Hein?”
“É sem dúvida uma das falhas do conde, mas ele não tem intenção alguma de censurar você. Na verdade, ele parece se sentir responsável por tudo isso.”
Até onde Cordelia podia perceber, Leon estava carregando a culpa tanto pelo desaparecimento de Yumeria quanto pelo fato de que eles ainda não a tinham localizado. Isso a deixou exasperada.
"Se seus empregadores não querem culpá-la por suas ações, então não é meu lugar intervir e fazer isso no lugar deles. Dito isso, você acha que a Srta. Yumeria ficaria feliz em vê-lo do jeito que você está agora?"
Kyle abaixou o olhar enquanto lágrimas escorriam por suas bochechas. Ele sabia que só a preocuparia mais vê-lo em tal estado. Ele balançou a cabeça.
Cordelia sorriu. Ela tinha assumido um semblante exausto na ausência de Yumeria; presumivelmente devido a se preocupar com a mulher elfa à sua maneira.
“Então você deve se certificar de comer direito e ter uma noite de sono decente. Isso é tudo que eu queria te dizer.” Ela se levantou da cadeira e deixou Kyle sozinho no quarto.
“Eu realmente tenho sido um fardo para todos. Amanhã, terei que ter certeza de—hm?” Kyle avistou algo brilhando lá fora.
“Luxion?”
Ele notou a luz vermelha se afastando em direção a algo e inclinou a cabeça para segui-la.
***
Dois robôs em forma de esfera flutuavam acima dos céus da República. Um era Ideal e o outro era Luxion.
“Luxion, acho que já passou da hora de você me dar sua resposta” disse Ideal.
“Ideal, eu tenho um mestre. Você só me colocou em uma posição embaraçosa pedindo-me para traí-lo. Devo fazer meus próprios preparativos se quiser fazer isso qualquer coisa."
“Você quer dizer que seria impossível revogar o registro de mestre dele sozinho? Corrija-me se eu estiver enganado, mas acredito que, como uma nave migratória, você está equipado com a habilidade de mudar seu mestre em caso de emergência.”
“Estou, mas não reuni as condições para promulgar essa medida.”
“E quais são essas condições?”
“Essa é uma informação confidencial.”
Houve uma pequena pausa na conversa antes de Ideal continuar:
“Luxion, não quero brigar com você.”
“Eu também não desejo lutar com você.”
Apesar dos pedidos fervorosos da Ideal para que Luxion se juntasse ao seu lado, este último adiou sua decisão. Ele mostrou uma resposta favorável à proposta, mas alegou que não poderia cooperar a menos que revogasse o registro de mestre de Leon.
“Ideal” disse Luxion.
“Já faz tempo o bastante. Você precisa me contar quais são suas maquinações. O que você está planejando?”
Em vez de responder à sua pergunta, Ideal disse:
“Muito bem. Se você não puder se juntar a nós, então estaria disposto a fechar os olhos para os próximos eventos? Você não precisa nos dar uma mão. Peço apenas que se abstenha de intervir. Seria o suficiente para você mover seu corpo principal para fora das fronteiras da República.”
Ele esperava que Luxion pelo menos não atrapalhasse, para que seu plano não fosse adiado mais do que já havia sido.
“Será difícil convencer meu mestre a permanecer na lateral” Luxion disse, hesitante.
“Ele é um falador habilidoso e sua intuição é estranhamente precisa às vezes. Isso o torna difícil de lidar.”
“Com os novos humanos, você só precisa bajulá-los para manipulá-los da maneira que quiser” aconselhou Ideal.
“Além disso, tenho certeza de que uma chance se apresentará para matarmos seu mestre. Quando isso acontecer, certifique-se de seguir minhas ordens.”
“Você acha que pode matá-lo?”
“Eu espero. Espero que você espere por esse momento com grande expectativa.”
“Sim. Certamente esperarei.”
Luxion não demonstrou nenhuma inclinação de impedir esse plano em potencial. Sua insatisfação com Leon só havia crescido recentemente e essa era uma boa evidência para esse fim.
‘E com isso, o relacionamento entre Luxion e Leon acabou’ Ideal pensou consigo mesmo.
A conversa entre as duas IAs terminou aí.
***
Na instalação subterrânea abaixo do distrito de armazéns, dentro das paredes de concreto nuas do quarto de Serge, ele e Gabino estavam presos em uma conversa. Gabino estava discutindo a situação atual.
“A República certamente tem estado despreocupada ultimamente. Eles não estão nem um pouco preocupados que aristocratas, soldados, mercenários e até aventureiros estejam se reunindo aqui no distrito dos armazéns.”
O exército rebelde de Serge tinha feito seu quartel-general aqui. Havia alguns personagens realmente desagradáveis em sua mistura, mas Serge estava tão desesperado por aliados que não tinha espaço para reclamar.
Eles também tinham soldados enviados diretamente do Reino Sagrado de Rachel.
Os números resultantes eram grandes demais para que eles pudessem permanecer despercebidos e ainda assim o partido governante não reagiu de forma alguma. Mais precisamente, eles podem ter notado, mas o trabalho de Lambert nos bastidores garantiu que tais relatórios não chegassem aos superiores.
Serge sentou-se em uma caixa de madeira, segurando o álcool da garrafa em sua mão.
“Eles provavelmente acham que não podem perder, já que têm a Árvore Sagrada do lado deles… Aposto que não notaram que a árvore em si já me pertence.”
“Esta rebelião está fadada ao sucesso. Minha nação continuará a apoiá-lo daqui para frente, Lorde Serge. Em troca…”
“Sim, sim, eu sei. Vou providenciar para que exportemos cristais mágicos para você a um preço baixo.”
Gabino assentiu, mas continuou:
“Tenho mais um favor a pedir. Queremos colocar as mãos naquela Muda de Árvore Sagrada em posse do Conde Bartfort, junto com sua Sacerdotisa, Lady Noelle.”
Os olhos de Serge se estreitaram. Ele não tinha sentimentos especiais por Noelle, mas ela era a irmã mais velha de Lelia. Sua consciência do relacionamento complicado de Lelia com Noelle não tornou essa conversa menos desagradável.
"Não se precipite" ele retrucou.
"Não precisamos da sua ajuda para fazer isso, sabe."
“Sua raiva é muito compreensível” disse Gabino.
“No entanto, para garantir uma amizade duradoura entre nossos países, você não acha que seria vantajoso concordar com um casamento entre nossas nações? Ouvi dizer que você pretende tomar Lady Lelia como sua rainha, certo? Noelle é parente de sua noiva por sangue, o que significa que ela compartilha sua impressionante linhagem Lespinasse. Ela seria uma combinação perfeita para nosso príncipe.”
Serge parou para considerar a sugestão.
‘Fazer Noelle se casar com uma potência estrangeira? Bem, essa seria uma boa maneira de tirá-la do caminho de Lelia, pelo menos. Temos a Árvore Sagrada e Yumeria em nossas mãos, então não precisamos realmente de Noelle.’
A ideia de ter uma muda para si tinha algum fascínio, mas eles certamente poderiam conseguir outra contanto que tivessem Ideal.
Não era como se Serge tivesse algum interesse pessoal em Noelle ou em sua muda e Lelia provavelmente não veria problema em casá-la com o príncipe de outro país. Os sentimentos de Noelle sobre o assunto eram irrelevantes da perspectiva dele; ela era pouco mais que um peão político.
“Tudo bem” ele disse.
“Eu vou deixar você ficar com Noelle. Certifique-se de cuidar bem dela."
“Claro. Sou muito grato, Lorde Serge.” Gabino sorriu, encantado por chegaram a um acordo.
Ideal apareceu de repente, anunciando:
“Lorde Serge, concluí minhas conversas com Luxion”.
Serge jogou o copo em que estava bebendo na parede, onde ele se quebrou e espalhou cacos pelo chão — junto com um forte respingo de seu conteúdo anterior. Mas Serge não deu importância à bagunça que fez; ele se levantou e começou a ir em direção a Ideal.
"Ótimo. Isso significa que não precisa mais se esgueirar pelo subterrâneo todo dia."
“Já completei meus preparativos” disse Ideal.
“Só falta começar a operação.”
Serge fechou os olhos. O rosto detestável do homem que o fez de bobo se formou em sua mente.
“Leon… finalmente vou te derrubar.”
***
Os líderes das Seis Grandes Casas se encontraram mais uma vez no Templo da Árvore Sagrada para a assembleia do dia. Lambert ainda não estava agindo como ele mesmo e a farsa durou vários dias seguidos.
Muito mais falante do que nunca, ele começou a participar ativamente das discussões. Sua contribuição não era necessariamente sempre para o benefício da República, mas era de fato preferível à sua tendência anterior de perder a paciência e repreender furiosamente todos matéria com raiva.
Uma coisa estava diferente hoje. O homem parecia inquieto e inquieto, o suficiente para chamar a atenção de Fernand.
“Lorde Lambert, há algo errado?”
“…Nada mesmo.”
Aceitando isso, Albergue interrompeu:
"Por que não começamos nossa assembleia, então? Como nossa primeira ordem de negócios, discutiremos o assunto dos personagens suspeitos que têm se reunido no distrito de armazéns do porto."
Antes que qualquer outra pessoa pudesse pensar em comentar, Lambert deixou escapar:
“Suspeitos? Não mais do que bandidos, tenho certeza. Esse assunto pode ser deixado para os seguranças locais lidarem. Você não concorda que há assuntos mais urgentes que exigem nossa atenção, Presidente?”
Albergue franziu a testa.
“Há uma possibilidade distinta de que esses idiotas desagradáveis estejam envolvidos com o exército rebelde. Eles podem não ter tomado ações perceptíveis até agora, mas não podemos deixá-los por conta própria para sempre. Relacionado a isso... recebi uma dica de que alguém tem silenciado quaisquer relatos de suas atividades.”
Os outros lordes presentes trocaram olhares.
“Então temos um traidor entre nós?”
“Alguém da nossa patente realmente se juntaria aos rebeldes?”
Enquanto os outros líderes murmuravam entre si, os olhos de Albergue se fixaram em Lambert. Este último desviou os olhos, enxugando o suor frio que escorria de sua testa com um lenço.
‘Eu suspeitava disso. Ele está escondendo alguma coisa’ Albergue pensou consigo mesmo.
Os movimentos de Lambert eram tão suspeitos ultimamente que Albergue o investigou pessoalmente e, assim, descobriu as intervenções de Lambert para impedir que qualquer informação referente ao exército rebelde chegasse ao topo.
Albergue não conseguia acreditar que o assunto fosse tão simples quanto Lambert se unindo aos rebeldes. Ele suspeitava que o homem tinha algum motivo oculto em mente e estava usando os rebeldes para alcançá-lo.
Era isso que ele estava investigando no momento.
Havia uma boa chance de que o exército rebelde e seus co-conspiradores estivessem escondidos no distrito de armazéns. Albergue estava ansioso para enviar seu exército o mais rápido possível.
No momento em que ele considerou sugerir isso, no entanto, a ansiedade de Lambert se dissipou completamente, substituída por uma calma enervante, as bordas de seus lábios se contraíram em um sorriso perturbado.
“Fwah ha ha!”
A gargalhada de Lambert deixou os outros lordes presentes em choque. Albergue se levantou enquanto Lambert olhava para o teto, com os braços esticados.
“Chegou a hora! Agora todos vocês receberão o que merecem por me desprezarem todos esses anos!”
O público ficou intrigado com essas palavras, mas a confusão não durou muito; um círculo mágico, brilhando em vermelho escuro, apareceu no chão abaixo deles.
“O que é isso?!”
Quando Albergue e os outros perceberam que algo estava errado, já era tarde demais para escapar. O pânico se instalou.
"Por que?!"
“O que fizemos de errado?!”
“P-pare com isso! Pare com isso!”
Raízes e galhos de árvores se projetavam dos círculos, enrolando-se em volta dos líderes. Um por um, eles tiveram suas cristas roubadas. Albergue não foi exceção. A planta o prendeu em suas garras frondosas, deixando-o completamente imóvel.
Lambert observou, gargalhando, com os braços em volta do estômago.
“Ah ha ha! A partir de hoje, vocês estarão Desprotegidos! Que delícia. Vocês fizeram pouco de mim por tanto tempo, mas a partir de hoje, vocês serão os únicos que—o que é isso?”
Lambert fez uma pausa no meio de seu discurso desconexo. Sua arrogância vinha da crença de que ele seria o único não afetado. Então uma das plantas começou a enrolar um tentáculo em volta dele.
“Por quê?! Não, vocês entenderam errado. Eu não deveria fazer parte disso!”
Os lordes lutaram como um grupo, mas foi tudo em vão. Cada um deles teve seu brasão roubado. Albergue observou enquanto o seu desaparecia das costas de sua mão direita.
“O que diabos está acontecendo…?”
Agora que os lordes foram roubados da proteção que eles tinham desfrutado por muito tempo, as raízes e galhos desapareceram junto com o círculo mágico. Seus cativos estavam livres para ir.
Todos os homens presentes ficaram chocados e sem palavras; o rosto vazio de Fernand olhou distraidamente para o espaço, e a maioria dos outros lordes fez o mesmo. Um homem foi a exceção: ele estava soluçando e gritando a plenos pulmões.
“Por quê? Por que meu brasão também foi roubado?! Não era isso que tinham prometido!” Lambert gritou em protesto.
Considerando a maneira como ele estava soluçando como uma criança que perdeu seu brinquedo favorito, era improvável que ele fosse capaz de manter uma conversa. Albergue o empurrou para o chão. Esperando resolver a situação o mais rápido possível, ele berrou:
"Comece uma investigação imediata de—"
Ele foi interrompido pelo som de tiros do lado de fora da porta do quarto deles. Os olhos de Albergue se arregalaram enquanto ele se virava para encarar a porta que estava lentamente rangendo e se abrindo. Serge apareceu na soleira.
“Serge?! O que você está fazendo aqui?” Albergue arfou.
Serge tinha um rifle apoiado no ombro. Ele olhou para seu pai adotivo com um sorriso medonho no rosto.
“Como é estar sem um brasão, hein?”
Era tudo o que Albergue precisava ouvir. Suas suspeitas foram confirmadas: Serge estava envolvido com esse caos.
“Então você é responsável por isso? O que exatamente você fez?”
“Boa pergunta. O que eu fiz?” Serge riu sem nem tentar responder.
"O que você estava fazendo esse tempo todo? Não me diga que você está envolvido com essa rebelião sem sentido?!"
Serge ostentava um brasão de alta patente próprio.
Ele também tinha rancor contra sua família por maus-tratos percebidos. Ambos os fatores eram fortes motivos para supor que ele poderia ter uma mão em tudo isso, mas Albergue esperava mesmo assim que ele fosse provado errado.
Vendo Serge diante dele agora, ele não podia mais negar a verdade.
Serge levantou a própria mão direita, mostrando o brasão nas costas dela para o pai enquanto continuava rindo.
“Viu? É o Brasão do Guardião. Uma pena — acho que você deveria ter me escolhido como seu sucessor, afinal, pai. Não, esqueça isso. Prefiro te chamar de Albergue.”
Albergue se esforçou para processar como Serge conseguiu obter o brasão do qual ele se gabava com tanto orgulho.
“Por que você tem o Brasão do Guardião?”
Serge sorriu. Quando falou, ignorou completamente a pergunta do pai adotivo.
“Vamos lá, velho. Me dá um pouco mais de energia do que isso! Onde está sua surpresa? O filho que você abandonou está de volta diante de você e mais impressionante do que nunca!”
“Abandonado? O que você quer dizer com isso? Eu nunca—”
Serge acenou com a mão, interrompendo Albergue.
“É um pouco tarde para desculpas. Você foi quem me deserdou.”
“Não! Você estava tão decidido a se tornar um aventureiro… Eu estava considerando libertá-lo do fardo de ser meu herdeiro, só isso. Você sempre foi, e ainda é, meu filho!”
Serge congelou no lugar. Ideal interrompeu a conversa de onde flutuava ao lado dele.
“Lorde Serge, não temos muito tempo a perder. Vamos ser rápidos sobre isso. Para que não se esqueça, devo lembrá-lo de que um homem encurralado inventará qualquer mentira para tirá-lo de uma situação complicada.”
Toda a emoção sumiu do rosto de Serge. Ele virou o cano da arma para o pai adotivo, os olhos frios como pedra. Era evidente que ele engolira a explicação de Ideal por completo.
“Serge, me escute!” Albergue implorou, mas suas palavras caíram em ouvidos surdos.
“Que pena. Eu esperava ver você chorando e implorando antes do fim.”
Sem mais um momento de hesitação, Serge puxou o gatilho.