Prologo

Publicado em 30/07/2025

O punho do homem foi batido sobre uma mesa.

"Não. Não!", rugiu ele.

"Eu me recuso a reconhecer um único deles!"

A luz vermelha do sol da tarde invadiu a sala de aula onde eu, Leon Fou Bartfort, estava sentado ao lado do meu colega furioso.

Fiz uma tentativa sem muito entusiasmo de acalmá-lo.

"Não fique tão irritado com isso."

O aluno em questão era Finn Leta Hering, mesmo depois do desabafo de uns segundos antes, ele insistiu:

"Eu não estou bravo"

Ele virou o rosto perturbado, cruzou os braços sobre o peito e ficou em silêncio.

Hering era alto, tinha pele morena escura e um rosto bonito. Como se isso não bastasse para se destacar, ele também tinha olhos vermelhos penetrantes e longos cabelos prateados presos firmemente na nuca.

Ele não era natural de Holfort, nasceu e foi criado no Império da Magia Sagrada de Vordenoit.

Sua atraente aparência estrangeira o tornava popular entre as garotas da escola — tão diferente dos homens locais de Holfort! — assim como a sensação de mistério e admiração que o acompanhava.

No entanto, por mais que as garotas se agitassem e se entusiasmassem, Hering não lhes dava a mínima.

Ele se importava com uma única aluna, chegou ao ponto de explorar um sistema imperial antiquado para viajar ao lado dela como seu protetor.

A garota pequena e modesta, porém cheia de energia, chamava-se Mia e era a protagonista da terceira parte do jogo otome.

Em nome da proteção de Mia, Hering estava estudando uma série de fotografias espalhadas sobre a mesa à sua frente, examinando os interesses amorosos que estavam concorrendo para desenvolver um relacionamento romântico com ela.

“A questão é que nenhum deles é digno dela” insistiu Hering.

Apesar de Hering não ter sentimentos românticos pela protagonista, era muito intenso quando se tratava de encontrar uma combinação aceitável.

Terrivelmente intenso, na verdade.

Peguei uma das fotos.

Reconheci a pessoa nela como o Príncipe Jake Rapha Holfort, o segundo príncipe do Reino de Holfort e atualmente o candidato mais provável a ser nomeado príncipe herdeiro.

Apesar de sua pequena estatura, tinha uma expressão arrogante, o que me fez suspirar antes de guardar a foto.

"Acho que no jogo, Jake é a rota canônica de fato. Por que não ir com ele?", sugeri despreocupadamente.

Eu estava tentando pressionar Hering a se comprometer e tomar uma decisão.

Hering estreitou os olhos enquanto estudava a fotografia do príncipe.

“O cargo de príncipe herdeiro está vago no momento e ele ainda não foi escolhido para ocupá-lo. Além disso, sua sede de poder é grande demais. Se Mia se juntasse a alguém que constantemente provoca brigas, ela inevitavelmente sofreria. Inaceitável.”

‘Então isso é inaceitável’

Estendi a mão e coloquei a próxima fotografia na frente de Hering.

"Então, que tal Oscar Fia Hogan?"

Oscar tinha cabelos ruivos e um corpo esculpido. Ele era o que se poderia chamar de um pouquinho "idiota"... Era um completo idiota.

Mas tinha um bom coração, eu o achava um candidato mais promissor, mas Hering o descartou de cara.

Ele está na mesma classe que a Mia, mas é um imbecil.

Normalmente, não é da minha natureza julgar a inteligência de outra pessoa, mas a estupidez dele o torna incapaz de protegê-la.

“Ele não é digno. De qualquer forma, ele não está namorando a sua irmã?”

Pois é, tá bom, escuta: graças ao Oscar, a casa dos Bartfort era o novo e feliz lar de uma bomba de entusiasmo.

Quando o Oscar entrou na nossa escola, ele tinha se tornado amigo da minha irmã mais nova, Finley.

Mas, antes que eu percebesse, algo tinha florescido entre ele e minha irmã mais velha, Jenna. Não que ele estivesse oficialmente namorando a Finley, tecnicamente não havia nada de errado em ele estar em um relacionamento com a Jenna — exceto pela cisão que isso tinha criado entre as minhas irmãs.

As duas eram amigas de infância há séculos, mas o Oscar tinha mudado tudo.

Depois que a Jenna cometeu o erro de se entusiasmar com o Oscar, falando com entusiasmo para a taciturna Finley sobre como ele era o seu parceiro há muito esperado, o caos se instalou.

Sem perceber, Finley em algum momento começou a ver o Oscar como um homem — como um potencial interesse romântico —, mas aí a Jenna apareceu de repente e o roubou debaixo dela!

‘Argh. Essas duas deveriam ser irmãs. O que elas estão fazendo brigando por um cara?’

Oscar basicamente jogou uma granada na minha sala de estar.

Eu não culpei o cara exatamente, mas reclamei com ele por isso, já que estava afetando minha vida doméstica.

Infelizmente, a estupidez do Oscar não tinha limites.

Minhas provocações sarcásticas... estavam completamente perdida no bobo sorridente. Ele conseguia interpretar tudo o que eu dizia como um elogio.

"Então acho que ele está fora de cogitação?" perguntei.

"Não tente forçar um homem comprometido com ela."

"Você diz isso, mas na verdade só resta uma pessoa... Erin, devo lembrar é uma garota agora."

Originalmente, havia outro interesse amoroso — um estudante chamado Aaron. O motivo pelo qual ele — ou melhor, ela — não estava mais na disputa era porque havia passado por uma mudança de sexo e se tornado uma menina.

Eu jamais poderia ter previsto aquela reviravolta.

Hering fez uma careta enquanto se afastava de mim.

"Se preciso lembrar, seu povo é responsável pelo status dela."

Certo, eu não podia ficar de braços cruzados enquanto ele me colocava entre os verdadeiros culpados.

"Não fui eu. Marie e Cleare fizeram isso, ok! Não é mesmo, Luxion?"

Olhei por cima do ombro, onde uma esfera de metal pairava.

Era meu parceiro, Luxion.

A lente vermelha de Luxion estava fixada no objeto flutuando perto de Hering — Brave.

Brave era o componente central de uma arma que os novos humanos haviam criado, chamada Traje Demoníaco.

Brave reconhecia Hering como seu mestre e o servia em qualquer função necessária.

Como foram os antigos humanos que criaram Luxion, os dois eram inimigos mortais.

"De fato" disse Luxion.

"No entanto, como já explicamos isso inúmeras vezes, só posso presumir que sua falta de compreensão se deve à sua dependência daquele Traje Demoníaco. Em termos humanos, acredito que a irritação que isso me causa seria melhor expressa como: 'Me dá vontade de vomitar'. Além disso, tenho certeza de que esses efeitos nocivos decorrem do uso contínuo daquela velha relíquia humana. Minha sugestão, portanto, é que cesse imediatamente todo contato com ela."

‘Que maravilha’

Luxion teve que usar o fato de estar me apoiando como uma oportunidade para lançar seu próprio ataque pessoal.

Em termos de forma, a aparência de Brave se assemelhava à de Luxion, exceto pelo fato de seu corpo ser mais carnudo e orgânico — o que o tornava ainda mais sinistro. Ele também tinha aquelas mãozinhas projetando-se do corpo.

Ele as usou para fazer gestos em direção a Luxion enquanto disparava:

"Como esse pedaço de metal podre ousa menosprezar meu parceiro!"

"Você não estava ouvindo?" perguntou Luxion.

"Eu também estava menosprezando você."

“Você me irrita mesmo!"

Enquanto Brave se enfurecia, Luxion o encarava friamente. Os dois eram inimigos ferrenhos que se atacariam no momento em que um deles abrisse a boca, sem exceção.

Hering ignorou a conversa, ele me olhou e suspirou baixinho.

"A Mia está numa situação muito precária."

“Você está falando sobre a premissa do enredo do jogo?”

"Sim. Embora tenha nascido plebeia, na verdade ela é filha ilegítima do imperador."

Parece bem comum que protagonistas de jogos sejam secretamente especiais.

Menino, menina, não importa — todo mundo sonha em ser importante.

"Não é tão simples assim." O rosto de Hering se obscureceu.

"Como princesa imperial, Mia foi arrastada pela crise de sucessão."

"Hã? Por quê?"

Como Hering me explicou, além de ser a protagonista do terceiro jogo, Mia também era filha ilegítima do imperador em exercício — fato que ela ainda desconhecia. Embora tivesse sido criada como uma cidadã comum, era uma princesa imperial do Império da Magia Sagrada de Vordenoit.

O problema era que Sua Majestade Imperial era de idade avançada e uma disputa pelo poder já havia se iniciado para determinar seu sucessor.

A expressão de Hering se contraiu de frustração enquanto ele prosseguia:

"Mia, é claro, não tem interesse em assumir o trono do imperador. Não que suas intenções tenham a menor relevância. Se ela obtivesse apoio, muitos aristocratas ficariam preocupados."

"Detesto colocar dessa forma, mas não seria meio difícil para ela fazer uma proposta séria? Quer dizer, ela nem sabe que faz parte da família imperial, né?"

Mais uma vez, irrelevante.

Muitos aristocratas acreditam que, para sua própria paz de espírito, qualquer fator imprevisível ou inconveniente deve ser eliminado.

É por isso que o amor não faz parte dessa equação.

Mia precisa de um parceiro com força para derrotar qualquer oponente que o desafie. Nada menos do que isso serve.

Hering olhou solenemente para as fotografias dispostas sobre a mesa.

Ele deveria estar escolhendo candidatos elegíveis para Mia, mas infelizmente...

"Nenhum desses homens se encaixava nos critérios" murmurou Hering, sorrindo amargamente para si mesmo.

Seu punho bateu na mesa mais uma vez, um estrondo ensurdecedor ecoou pela sala.

"Como se eu pudesse deixar um homem sem verdadeira determinação encostar um dedo na Mia!"

“C-certo…”

A força por si só não protegeria Mia da situação política precariamente complicada em que ela se encontrava. Poder financeiro, influência e até mesmo status social também entrariam em jogo.

"Se Jake não estivesse tão apaixonado por Erin, ele teria sido viável."

Jake era praticamente o herói principal da terceira parte do jogo otome.

Ele também era o segundo príncipe do Reino de Holfort.

Infelizmente, além de sua sede insaciável por poder e status, ele tinha um problema adicional: Aaron, ou Erin, como era conhecida agora. A pequena operação de mudança de sexo de Marie e Cleare a transformou em uma garota.

Ironicamente, seu apelido, Eri, soava bem parecido com o apelido de Cleare, quando pronunciado em voz alta.

A expressão sombria de Hering, momentos antes, azedou ainda mais.

"Como exatamente alguém consegue mudar um interesse amoroso de um homem para uma mulher?"

A confusão dele era natural. Eu me perguntei a mesma coisa.

"Não foi exatamente assim que decidi. Enfim, se esses três estão fora, só nos resta um."

O sujeito em questão tinha olhos suaves e convidativos e feições delicadas, mas na fotografia que Luxion havia fornecido, sua expressão sugeria uma personalidade terrível. A discrepância não pôde deixar de me deixar curioso.

Hering pegou a fotografia para estudá-la. Seu rosto endureceu, indicando que não estava muito a fim dessa opção.

"Não sei muito sobre esse aluno, mas esta foto sugere uma nítida falta de força."

Prestativo como sempre, Luxion interveio para preencher as lacunas.

"Quanto a Ethan, ele conseguiu superar o irmão mais velho para reivindicar o direito de herdar o condado de sua família. Parece que ele não é apenas um conjurador de magia talentoso, mas também um espadachim experiente. Aliás, em termos de esgrima, ele é considerado um dos maiores de Holfort."

Essas pequenas coisas me lembravam de Brad e Chris. O cabelo de Ethan era até meio arroxeado, o que quase o fazia parecer...

“Ele parece o que você conseguiria se juntasse Brad e Chris em um cara."

Ele era um dos melhores espadachins do reino, habilidoso na magia e na espada, herdeiro de um território regional.

Parecia um polivalente, capaz de fazer qualquer coisa que lhe desse na telha.

"Você tem toda a razão, Mestre" disse Luxion.

“Ele possui todas as características que Finn mencionou: status social, poder financeiro e impressionante destreza em combate. Se considerássemos apenas essas especificações, ele seria de fato o melhor candidato para parceiro romântico de Mia. Não que ele tenha muita concorrência, já que nenhum dos outros é remotamente viável."

Em suma, ele não era apenas a melhor opção em virtude de seu perfil impressionante. Por processo de eliminação, ele era basicamente a única opção.

Olhei para Hering.

“Deveríamos tentar abordá-lo, só para verificá-lo?"

Os olhos de Hering se estreitaram enquanto ele continuava a examinar a foto do homem.

"Sim, vamos. Vou conduzir uma investigação completa para garantir que ele seja adequado."

"Você é mesmo superprotetor." Soltei um pequeno suspiro exasperado.

"Quando se trata da Mia, o comportamento do meu parceiro muda completamente" concordou Brave.

"Me faz sentir um pouco de pena das garotas que se apaixonaram por ele."

Por mais bonito que fosse, Hering era abordado com frequência por mulheres, mesmo sem nunca ter dado a elas a mínima atenção.

"Gostaria de ter esse tipo de apelo" murmurei.

Como Hering estava concentrado nas fotos, Brave se ocupou comigo.

"Mas você já conquistou várias mulheres, não é? Segundo meu parceiro, você está em um relacionamento com a protagonista e a vilã do primeiro jogo. Além disso, você conquistou a protagonista do segundo jogo. Está fazendo isso de propósito?" Ele me olhou com desconfiança.

Lancei-lhe um sorriso enigmático.

"Você acredita em milagres? Porque é isso mesmo. Pura coincidência."

Finalmente, na minha segunda vida, alcancei um certo grau de popularidade com as mulheres. Eu também parecia ter um bom senso de oportunidade e foi por isso que antes mesmo de perceber o que estava acontecendo, consegui três noivas.

Honestamente, foi um pouco mais do que eu merecia.

"Você está tentando me dizer que é mera coincidência você ter fisgado a protagonista e a vilã e estar noivo com elas? Seja honesto, você mirou nisso”

"Elas, não é? Pode me contar. Vamos lá, eu sei guardar segredo."

"Você é mais divertido do que eu imaginava" eu disse.

"Mestre é inútil continuarmos discutindo neste momento. Pode deixar a questão do Ethan para esses dois. Devemos voltar para o dormitório estudantil." interrompeu Luxion,

Ele não fez nenhum esforço para esconder que havia se intrometido na minha conversa com Brave.

"É, boa ideia. Acho que a gente já vai voltar. Você vem Hering?"

Parei por um instante ao perceber que ele ainda estava olhando para a foto com uma expressão endurecida.

"Ainda está de olho naquele cara, né?"

"Ele parece ter a pior personalidade, isso não me cai bem. Você acha mesmo que esse homem merece a Mia?"

Hering encarou o sujeito como se ele fosse um inimigo jurado. Isso me irritou, mesmo porque eu já sabia que encontrar um parceiro romântico para Mia seria muito mais difícil do que eu imaginava.

“Honestamente, talvez seja mais rápido para você ir atrás de um cara que você realmente aprove” eu disse.

***

Os Redgraves tinham raízes na família real de Holfort e eram uma das casas nobres mais poderosas que apoiavam o reino.

Naturalmente, dado o seu status de ducado, possuíam um território convenientemente enorme, na forma de uma ilha flutuante.

O poder que possuíam possivelmente ofuscava o de países pequenos.

Eles mantinham uma residência considerável e imponente na capital propriamente dita. Devido à sua obrigação de fornecer apoio ao reino quando necessário, a família sempre mantinha uma de duas pessoas residindo lá: o atual duque, Vince, ou seu herdeiro, Gilbert.

Outros aristocratas aderiram à mesma prática, mantendo suas próprias propriedades na capital para fornecer assistência imediata em tempos de emergência.

Nos últimos tempos, essa prática começou a mudar.

Angélica Rapha Redgrave havia sido convocada para o julgamento.

Ela estava em um escritório com seus longos e brilhantes cabelos loiros cuidadosamente trançados e presos em um coque na parte de trás da cabeça. Seus olhos vermelhos eram penetrantes e estreitos, sugerindo a força de vontade escondida dentro dela.

Embora ela normalmente exalasse um ar digno, hoje era uma exceção; ela estava com a testa franzida.

Apesar de ter retornado à casa da família, seu estômago estava embrulhado diante do irmão mais velho, Gilbert.

Ele estava sentado do outro lado da mesa de trabalho, onde cuidava da papelada enquanto falava com ela. Seu olhar não se desviava dos documentos à sua frente, enquanto sua caneta corria pela página para assinar.

“Parece que você se mostrou bastante útil durante aquela suposta revolta. Como seu irmão mais velho, estou orgulhoso.”

Gilbert se referia a um evento recente, durante o qual o Reino Sagrado de Rachel manipulou os acontecimentos para incitar as forças da oposição em Holfort a darem um golpe.

Felizmente, a intervenção abrangente de Leon permitiu que Holfort reprimisse os rebeldes com poucas baixas.

Angie fez uma careta enquanto olhava para o chão, tentando ao máximo não deixar Gilbert ver.

"Eu não fiz nada. Todo o crédito é do Leon."

"Tenho certeza de que é verdade. Como seu futuro cunhado, eu também não poderia estar mais orgulhoso dele. Nunca imaginei que ele chegaria ao posto ducal em uma única geração. Os caprichos de Sua Majestade são realmente problemáticos." Gilbert forçou um sorriso, mas por baixo de tudo, Angie conseguia sentir sua insatisfação.

“Leon também não queria isso” ela disse.

“Não é de surpreender, já que ele não tem nenhum interesse em alcançar status maior.”

Um espectador desinformado que escutasse a conversa poderia ter pensado que não passava de uma conversa fiada entre irmãos.

No íntimo, Angie estava em pânico.

‘Eles não acham que Leon ficou do lado do reino nisso, acham?’

Ela temia que sua família estivesse descontente com Leon pelo papel que ele desempenhou em reprimir a insurreição.

Ultimamente, uma rixa significativa havia se formado entre os Redgraves e a família real. Começou quando o príncipe herdeiro anulou seu noivado com Angie, mas a insatisfação com a família real crescia em toda a aristocracia.

Havia uma boa razão para isso, em parte devido ao antigo Principado de Fanoss, que havia sido reabsorvido como um ducado holfortiano.

Durante a guerra com o principado, Holfort perdeu o navio da família real, que servia como arma secreta do reino. Este lendário navio fora a força motriz por trás da fundação da nação.

Com sua perda, o poderio militar havia sido severamente reduzido.

O Reino de Holfort era um estado feudal; a nobreza regional, portanto, viu uma redução repentina no poder da família real como uma oportunidade. A aristocracia não estava disposta a se curvar diante de uma família real impotente, muito menos os nobres que detinham o maior poder.

Os Redgraves não eram exceção a essa regra.

Eles já haviam desistido do reino.

A caneta de Gilbert parou de se mover.

Ele a pousou e olhou para a irmã, com o rosto sério.

"Felizmente, o resultado foi vantajoso para nós. Leon conseguiu demonstrar que podia assumir o controle da situação na capital sozinho, provando assim que se assim o desejasse, poderia igualmente assumir o controle da própria cidade."

De fato, embora Leon tivesse protegido a capital desta vez, suas ações deixaram claro o quão facilmente ele poderia subjugar a cidade. Gilbert pelo menos não estava reclamando abertamente sobre o rumo que as coisas haviam tomado, mas não estava disposto a deixar Angie escapar.

"No entanto, isso também prova que você não tem uma compreensão sólida da extensão total do poder de Leon. Se soubéssemos de suas capacidades com antecedência, poderíamos ter inclinado a situação ainda mais a nosso favor."

“Mas eu—”

Angie tentou protestar, mas Gilbert levantou a mão para interrompê-la.

"Sem desculpas" disse ele.

"Tem certeza de que ele confia em você?"

O ceticismo de Gilbert era profundo — não por ser irmão mais velho de Angie, mas porque a pergunta a fez reconsiderar. Angie cerrou os punhos ao lado do corpo enquanto rangia os dentes.

"Sinto muito... por isso."

‘Eu sou realmente bom o suficiente para Leon?’ ela se perguntou, irritada por se sentir tão carente.

Para piorar a situação, Gilbert acrescentou:

"Vocês deveriam cultivar mais confiança um no outro; logo serão marido e mulher. Deixando isso de lado, parece que Leon tem aparecido no palácio real com bastante frequência ultimamente. Corre o boato de que ele desenvolveu uma fixação pela Princesa Erica. Estaria eu certo em presumir que isso não passa de fofoca?"

Era verdade que Leon frequentava o palácio real para se encontrar com a princesa holfortiana, Erica Rapha Holfort. Esse fato fez com que Gilbert olhasse friamente para Angie.

Ele esperava que sua brevidade intencional a motivasse a agir.

“Ele está interessado não apenas na rainha, mas também em sua filha. Ele parece gostar das flores que crescem nos penhascos mais altos. A verdadeira questão é que um homem de sua posição atual poderia, se quisesse, estender a mão e colhê-las.”

“Leon não é—” Angie começou.

“Angie, sinceramente não acredito que, se você perguntasse agora, conseguiria extrair os verdadeiros sentimentos dele. Não se esqueça do seu papel nesta família. Seu dever é garantir a lealdade de Leon a nós.”

Agora que os Redgraves haviam escolhido se opor ao reino em seu estado atual, eles pretendiam usar Angie para ganhar a lealdade de Leon, adquirindo assim o maior poder do país para si.

Angie não aguentou.

Embora mantivesse os olhos fixos no chão, deixou sua posição clara:

"Sou contra envolver Leon em quaisquer novos conflitos."

Gilbert pareceu surpreso com o comentário dela, como se não tivesse previsto nenhuma demonstração de resistência.

"Você realmente acredita que Holfort pode ter esperanças de continuar sendo uma grande potência mundial nesse ritmo? Quer você goste ou não, ele terá que lutar. É o destino de um aristocrata derramar sangue."

Gilbert acreditava firmemente que era natural para a nobreza ir à batalha em tempos de guerra. Ele só conseguia olhar para Angie com descrença.

"Leon é..." Angie interrompeu o estridente comentário, sua garganta secando.

"Ele é gentil demais para a batalha."

Seus pensamentos se voltaram para Leon, para seu cansaço mental após todos aqueles conflitos.

Gilbert soltou um suspiro abafado.

"É verdade, o homem é fraco. Mas ele é o cavaleiro mais forte do reino e sua infâmia se espalhou além das fronteiras. Nossa casa precisa do apoio dele se quiser continuar."

Os laços de Leon com os Redgraves eram fortes por meio de seu casamento com Angie.

Portanto, eles não hesitaram em atraí-lo para sua própria luta pelo poder.

‘Então nem meu irmão nem meu pai veem Leon como algo mais do que uma ferramenta de batalha?’ Angie pensou.

Mas tudo o que Leon quer... é viver uma vida tranquila e pacífica no campo.