A Academia era tão tranquila nos fins de semana e feriados que se tornava um ótimo lugar para relaxar e descansar.
Era a oportunidade perfeita para sair com os amigos e dar um passeio na capital.
Tendo conhecido a vida acadêmica apenas quando era um verdadeiro inferno na Terra, não pude deixar de invejar meus colegas. Alguns deles pareciam ter vidas amorosas saudáveis, mesmo tendo exceções.
Bocejei e me espreguicei enquanto caminhava por um dos corredores silenciosos, Marie me acompanhando ao lado.
Embora tivesse sido minha irmã em nossa vida anterior, ela começou sua jornada neste mundo como um ser de puro caos; suas ações haviam levado Holfort à beira da destruição.
Seu nome completo agora era Marie Fou Lafan, embora muitos a conhecessem como "a falsa Santa".
Marie costumava andar deslizando ao meu lado, com suas pernas bem mais curtas que as minhas.
Desta vez, ela carregava sacolas cheias de presentes que comprou na capital, esboçando um pequeno sorriso.
"Mal posso esperar pelo meu próximo chá da tarde com a Erica. Sinceramente gostaria de tomar um todos os dias, mas causaria muito rebuliço, então só podemos nos encontrar nos fins de semana."
A falsa Santa que passou um tempo com a primeira princesa do país abriu uma caixa de Pandora.
Na verdade, Erica era filha de Marie em sua vida passada, em outras palavras, minha sobrinha. Isso proporcionou um reencontro emocionante para Marie, pois ela pôde rever a filha após suas reencarnações.
Naturalmente, ela ansiava pelos fins de semana, quando podia ir aos chás da Erica e colocar o papo em dia. Eu sabia o quanto isso significava para ela.
Quer dizer, ela vinha até o meu quarto para me acordar e me arrastava até a capital para comprar doces para a ocasião.
"Você sabe que os caras estão espalhando todo tipo de boato porque você vem ao meu quarto todas as manhãs nos fins de semana, né? Por que não demonstra um pouco de consideração pelos problemas que está me causando?"
“Não tenho escolha!” argumentou Marie, agitando os braços.
“Não posso encontrar Erica, a menos que você esteja comigo. Você é o duque aqui, de qualquer forma, a única razão pela qual eu te faço vir comigo para comprar coisas é porque você insiste em ser o anfitrião.”
Eu não achava esses chás de fim de semana com Erica particularmente penosos, nem um pouco. Para começar estava interessado em conversar com a minha sobrinha.
Mais do que isso, organizar chás era a minha paixão.
Não.
Era a minha verdadeira razão de viver.
Então, se eu tivesse que participar de qualquer maneira, eu queria ser o anfitrião.
"Isso é fato, dificilmente poderíamos pedir para a Erica fazer isso. Ela pode ter sido minha sobrinha na minha vida passada, mas nesta é uma princesa."
O Reino de Holfort era um dos países mais importantes do mundo e ela estava vinculada a certas expectativas.
"Aham" Marie retrucou.
"Vamos ser sinceros, você só quer se entregar ao seu pequeno hobby."
"Isso faz parte obviamente, não vou mentir. Mas eu me sentiria genuinamente mal se fizesse Erica se dar ao trabalho, ela é minha sobrinha."
“Ah, e eu sou sua irmã, lembra?”
"Desculpe, mas na minha lista de prioridades, ela está muito acima de você."
"Que discriminação é essa, hein?!"
"Mais ou menos, eu poderia dizer o mesmo de você. Por que você me tira da cama nos fins de semana para fazer compras? Eu deveria ser seu irmão mais velho, certo? Você não mudou nada." Dei de ombros.
Isso foi um eufemismo.
Marie fez a mesma coisa em nossa vida passada —me dava ordens como se eu fosse uma empregada nos fins de semana e depois pedia dinheiro sempre que precisava.
Enquanto Luxion pairava sobre meu ombro direito ouvindo a conversa, ele voltou o olhar para Marie.
"Se as alegações do meu mestre forem verdadeiras Marie, então parece que você não amadureceu nem um pouco desde a sua reencarnação. Embora o crescimento físico pareça estar além das capacidades do seu corpo subdesenvolvido, acredito que seja perfeitamente possível aprimorar sua capacidade mental. Já considerou adotar comportamentos mais adultos?"
A crítica mordaz de Luxion deixou Marie boquiaberta de descrença.
Mas ela não ficou sem palavras por muito tempo, o sangue subiu ao seu rosto enquanto ela explodia em raiva.
"O que você quer dizer com isso?! Quem disse que meu corpo não vai se desenvolver mais?! Espere só para ver, vou me transformar em uma mulher adulta perfeitamente sensual!”
“Isso não foi uma opinião, a avaliação se baseia em dados concretos.”
"Que dados, hein? E o que foi aquilo sobre eu não me comportar como adulta?! Detesto te dizer isso, mas vivi muito mais que meu irmão. Saiba que, ainda sou a mesma mulher adulta, íntegra e experiente que era na minha vida anterior."
Marie estufou o peito completamente plano, uma incoerência irônica à sua maturidade autodeclarada.
“Huh, engraçado como uma certa pessoa que afirma ser uma adulta totalmente madura é a mesma pessoa que enganou cinco jovens e se meteu em um mundo de dor.”
"A culpa é toda sua e você sabe disso!" Marie gritou para mim, sua voz ecoando pelo corredor vazio.
“Só porque você se precipitou.”
"Tá, eu admito! Mas como isso justifica você ter espancado cinco caras num duelo? Vamos ser sinceros: você só estava com inveja do Julius e dos outros por causa da beleza deles, então quis machucá-los para se sentir melhor!"
Marie não era minha irmã à toa, ela me conhecia muito bem.
"É, você entendeu. E daí?" retruquei.
Marie cerrou os punhos e rangeu os dentes.
Eu tinha razão.
Ela realmente não tinha amadurecido nada.
Aliás, graças àquele corpo magricelo, ela provavelmente se sentia ainda mais jovem do que na nossa vida anterior. Não senti a compostura adulta que se esperaria encontrar em alguém que tinha acumulado tanta experiência quanto ela alegava.
Luxion moveu o olhar de um lado para o outro, como se estivesse balançando a cabeça.
"Mestre, preciso lembrar que o senhor precisa de um pouco de amadurecimento mental?"
‘Tenho certeza de que já tivemos essa mesma conversa antes.’
Ao contrário de Marie, eu não estava particularmente decidido a ser adulto e deixei Luxion saber disso.
"No fundo, sou um jovem rapaz puro, jamais jogaria dessa forma."
“Suponho que, no mínimo sua capacidade de inventar desculpas para si mesmo parece ter melhorado.”
“A prova está no aqui: os adultos são ótimos em dar desculpas para si mesmos.”
“Vejo que o status da sua maturidade depende da conveniência.”
"Adaptar-se à situação é uma habilidade importante." Sorri para ele.
Marie observou enquanto continuávamos esse vai e vem sem sentido.
Ela aninhava as sacolas de compras nos braços e franzia os lábios num beicinho.
"Vocês são mesmo duas ervilhas na mesma vagem, principalmente com a forma maravilhosa como se expressam, com sarcasmo e tudo."
Nenhum de nós ficou satisfeito em ser colocado no mesmo grupo do outro.
"Eu e ele? você só pode estar louca, eu sou muito mais gentil do que esse idiota." Zombei
“Você acredita que meu mestre é semelhante a mim? Parece que você precisa de um exame oftalmológico completo, sem falar em uma tomografia cerebral. Quer que eu faça isso para você?"
Marie suspirou profundamente.
"Tanto faz" ela retrucou.
***
Há apenas alguns anos, os salões de chá da escola eram frequentados diariamente, com alunos convidando alunas para suas festas, mas essa tendência havia caído em desuso.
Atualmente, a frequência havia diminuído drasticamente.
Consequentemente, a escola havia tomado a decisão de reduzir o número de salas destinadas à prática. Como apreciador de chá, achei isso um pouco trágico, mas também gostava de organizar festas no silêncio recém-descoberto.
O local tinha sido muito mais barulhento durante meu primeiro ano na academia.
Enquanto eu me ocupava em escolher as cadeiras adequadas para o chá que eu estava servindo, Marie e Erica encontraram seus lugares e conversavam animadamente.
Marie parecia uma criança animada tagarelando, enquanto Erica parecia mais uma mãe que achava essas divagações encantadoras.
"De jeito nenhum! Aquela loja faliu?!"
"Sim, o dono disse que eles estavam se aposentando."
O assunto da conversa em que estavam tão envolvidos era a nossa vida passada, era a única coisa que Marie e Erica tinham em comum, então eu não conseguia me intrometer na conversa.
Mesmo assim, achei agradável apenas ouvir.
Eu provavelmente estava sorrindo sem perceber porque Luxion comentou,
"Seu estado mental parece ter se estabilizado. Acredito que esses chás de fim de semana se tornaram essenciais para o seu bem-estar."
"Mesmo eu estando no centro de todos esses boatos agora? As pessoas estão dizendo que estou namorando a Erica e a Marie."
A frequência dos nossos chás da tarde tinha feito os boatos ganharem força.
Fiquei um pouco preocupado, mas Luxion não pareceu nem um pouco preocupado.
"Sua reputação entre os estudantes não me interessa" disse ele.
"Mas para mim interessa, sabia?"
"É uma questão de prioridades. Em vez de desperdiçar sua energia com as opiniões da ralé, você deveria se concentrar em si mesmo."
"Você realmente chamou o corpo estudantil de 'ralé'?"
Embora Luxion se referisse aos meus colegas com uma linguagem no mínimo descortês, isso era uma melhoria em relação ao seu vocabulário anterior.
No passado, ele teria dito algo como: "Esses novos humanos com sua habilidade de manipular magia — talvez devessem todos se apressar e morrer".
Ah, que belas lembranças, a nostalgia de tudo aquilo me trouxe de volta.
"Indo direto ao ponto, você tem outros assuntos com que se preocupar, não pode se dar ao luxo de perder tempo se preocupando com as divagações da ralé."
“Sim, sim, eu ouvi você.”
Quando preparei o chá e me dirigi à mesa, fui recebido pela visão de Marie gesticulando descontroladamente enquanto falava com Erica.
Erica sorria enquanto ouvia em silêncio, respondendo com um aceno ocasional, ela nos disse que vivera além dos sessenta anos em sua vida passada, então provavelmente era bem madura por dentro.
No mínimo, ela parecia terrivelmente pé no chão para alguém tão jovem.
Isso fazia Marie parecer a criança e não o contrário.
"Fiz um chá que vai combinar perfeitamente com os lanches que escolhemos — peraí, quantos vocês já comeram?!"
Quando olhei para a mesa, mais da metade dos doces tinha acabado.
Marie prontamente desviou o olhar, como se eu precisasse de mais uma prova de que ela era a principal culpada.
“Você é um verdadeiro leitão, sabia?” eu disse.
"Ah, não consigo evitar" respondeu Marie, com uma voz enjoativamente doce.
"Você poderia tentar agir como se tivesse a sua idade? Que droga, até um ou dois anos mais velha? Você está velha demais para ser mimado o tempo todo.” Suspirei.
“A maioria dos homens adora ter a oportunidade de mimar uma mulher, sabia?”
"Você com certeza se tornou uma desculpa esfarrapada para um adulto. Que tal aprender um pouco com o exemplo da Erica, hein?"
Marie lançou um olhar furioso.
"Como assim?! Eu a criei, lembra?!"
"Acho que você deu a ela um bom exemplo de como não se comportar, fico feliz que ela não seja nada parecida com você."
“Agora você está realmente me irritando, seu grande idiota!”
Enquanto lançávamos nossas saraivadas de respostas fulminantes, Erica sentou-se ao nosso lado, franzindo a testa.
Não demorou muito para que ela interviesse, na esperança de pôr fim à nossa discussão verbal.
"Vamos todos nos acalmar" disse ela, "Seria uma pena se deixássemos o chá esfriar."
Marie e eu bufamos e desviamos o olhar enquanto tomávamos chá, Erica nos olhou preocupada.
Eu estava preparado para ela suspirar de exasperação, mas em vez disso, ela caiu na gargalhada.
‘O que havia de tão engraçado nisso?’ Eu simplesmente não entendia.
"Por que você está rindo?"
Erica imediatamente se endireitou e olhou diretamente para mim, seu sorriso era de um brilho ofuscante.
"Eu acho tão engraçado ver como vocês se divertem quando brigam. O jeito que vocês se tratam é exatamente como meus avós sempre diziam."
"Avós?" perguntei antes que eu me desse conta.
"Ah, mamãe e papai?"
Erica assentiu.
"Eles sempre falavam de você, costumavam dizer que, se estivesse vivo, você e a mamãe provavelmente ainda brigariam, mesmo depois de adultas."
‘Que tipo de coisas eles estavam dizendo a ela?’
"Não acredito que eles diriam coisas assim. Você acha que eles te contariam que, ao contrário da sua mãe, eu era uma pessoa super gentil, esse tipo de coisa. Quer dizer, não é isso que normalmente se faz quando se fala dos mortos? Tentar edificá-los?"
"Receio que deva simpatizar com seus antigos pais" disse Luxion.
"Gerar um filho como você certamente teria sido uma dificuldade imensa."
"Ei, não aja como se eu fosse uma criança demoníaca indisciplinada, quem estava dando dor de cabeça neles era a Marie, não eu."
Todos os olhares se voltaram para Marie, que engolia chá para acompanhar todos os doces que havia comido. Assim que terminou, expressou seu descontentamento.
"Eu era uma criança perfeitamente boazinha na maior parte do tempo. Era você quem os castigava, você se comportava bem no dia a dia, mas às vezes era a máquina do caos total, lembra?"
"Por favor, eu era um anjo comparado a você."
"Nunca! Nem um pouco!"
Parecia que estávamos em um impasse quando se tratava de memórias do nosso passado compartilhado. Mas eu sabia que minha versão era a correta.
Marie definitivamente estava se lembrando mal das coisas.
Mesmo assim, guardei quaisquer comentários adicionais para mim e tomei outro gole de chá.
“Deixando isso de lado” eu disse, “como foi que os dois se foram?”
Admito que a pergunta era vaga, mas Erica entendeu ao que eu estava me referindo: a morte dos meus pais.
Ela sorriu tristemente, baixando o olhar.
"Eu estava com eles quando faleceram, disseram que estavam indo para a vida após a morte para repreender 'aqueles dois idiotas'."
‘Esses dois idiotas, hein…?’ Sem dúvida, eles se referiam a mim e à Marie.
Fizemos a única coisa que nenhuma criança deveria fazer aos pais: morremos antes deles. Mas não é como se eu tivesse pulado da cruz por vontade própria nem nada.
Então, o que eles queriam dizer com ir nos repreender, hein?
Se tivessem alguma palavra de despedida para nós, eu esperava que prometessem nos ver novamente do outro lado ou algo assim. Por outro lado, implicar com os detalhes era mais o estilo deles.
"Que maldade da parte deles, dizendo que querem nos dar uma bronca. Principalmente porque a única com quem eles deveriam estar irritados era a Marie." Dei uma risadinha.
Marie torceu o nariz e franziu a testa para mim.
"Por que eu? Se eles iam ficar bravos com alguém, obviamente seria você. Ficar acordado a noite toda jogando videogame, só para morrer caindo da escada... Que jeito patético de morrer, não acha?"
"Foi você quem me forçou a jogar aquele jogo!" gritei, apontando o dedo na direção dela.
"A culpa é sua por não ter se cuidado melhor." Marie bufou.
"Ora, sua pequena..."
Eu queria continuar, mas ela tinha razão.
Até eu percebi que tinha sido uma péssima escolha virar tantas noites seguidas e como eu não tinha base para me apoiar, apenas tomei meu chá em silêncio, olhando para o teto o tempo todo.
Depois de uma longa pausa, eu finalmente disse:
"Esses são pais muito cruéis, dizendo que virão nos dar uma bronca em vez de, você sabe, dizer que nos verão em breve ou algo assim."
Mas se eles de alguma forma conseguissem reencarnar neste mundo também, eu provavelmente morreria de rir.
"Eu não me importaria se eles estivessem bravos, nem mesmo se gritassem conosco", disse Marie, baixando os olhos.
"Só queria poder vê-los de novo."
Nós dois havíamos cometido um erro terrível com nossos pais, além de todos os problemas que deixamos para Erica.
"Obrigada por estar lá por eles", eu disse a ela.
"Eu estava preocupada, já que Marie e eu falhamos com eles. Mas saber que você estava lá me traz um grande alívio."
Apagou uma grande preocupação que pairava sobre mim, meu coração ficou muito mais leve.
"Você estava realmente preocupado?" perguntou Luxion, como se mal pudesse acreditar.
"Eu tinha certeza de que você tinha se esquecido dos seus pais."
"Eu sou humano, sabia? É claro que eu queria saber o que aconteceu com meus pais depois que eu morri. Tenho plena consciência do fardo que coloquei sobre eles. Ficou ainda mais evidente quando Marie apareceu de repente e eu descobri que ela também tinha morrido antes deles."
Era difícil acreditar que nós dois tínhamos errado tanto, era por isso que eu era tão grata à Erica.
"Obrigado" eu disse a ela.
"Juro que vou te pagar de alguma forma. Se você tiver algum problema, é só me dizer que estarei lá para te ajudar."
Erica deu um sorriso sem graça.
"Você realmente não precisa se preocupar com isso, eles eram meus avós. Me criaram com tanta gentileza, então não precisa ficar falando em 'retribuição' tio."
Perturbado e sem saber como responder, cocei a cabeça em silêncio. Fiquei comovido com a mulher maravilhosa que minha sobrinha havia se tornado.
Luxion murmurou:
“Mestre, é um verdadeiro desafio acreditar que você era biologicamente relacionado a Erica em sua vida anterior.”
Marie estufou orgulhosamente seu peito (preciso lembrar: inexistente).
"Ela é incrível, né? Meu orgulho e alegria."
"Ah?", perguntou Luxion.
"Achei que seus pais a criaram, foi o que me pareceu."
"B-bem, sim, mas ainda assim."
"O que, se não me engano, significaria que todo o crédito vai para eles."
"É, tá! Talvez todo o crédito seja deles, mas eu tenho permissão para pelo menos ter um pouquinho do orgulho, não é? Ela é minha filha!"
"Infelizmente, ela é filha de outra pessoa, que pena para você."
"Você tem algum tipo de rancor contra mim ou algo assim?!" Marie estalou.
Dei uma risadinha enquanto observava Luxion implicar com ela.
Mas, com o canto do olho, vislumbrei Erica sorrindo, desolada.
***
Quando Angie voltou para o seu quarto no dormitório feminino depois da visita à propriedade Redgrave, Livia foi direto até ela. Angie viu a mancha de tinta no dedo mindinho direito de Livia e percebeu que ela estava estudando.
"Desculpe, parece que te interrompi." disse ela, com um sorriso fraco.
Lívia sorriu para ela.
"Você nunca vai interromper. Afinal, este é o seu quarto, bem-vinda de volta Angie."
"Obrigado."
Pelo menos o sorriso de Lívia trouxe algum conforto a Angie, mas não durou muito, pois a expressão de Lívia logo se anuviou.
Ela provavelmente conseguia adivinhar a natureza da conversa na propriedade Redgrave, dada a expressão abatida de Angie.
Da mesma forma, Lívia percebeu que o resultado não tinha sido favorável a Angie, embora isso não a impedisse de perguntar.
“Bem, como foi?”
O sorriso forçado de Angie desapareceu quando ela admitiu honestamente:
"Meu irmão me repreendeu, deu a entender que eu não estava correspondendo às expectativas."
“Meu Deus…”
“Parece que meu pai e meu irmão não se importam com a atenção que Leon dá à Princesa Erica.”
A expressão de Lívia endureceu ao ouvir a menção da princesa, ela e Angie sabiam muito bem que Leon estava oferecendo chás para a princesa toda semana.
Elas também sabiam que não havia sentimentos românticos em jogo, mas a situação não era das melhores. Os alunos já murmuravam que Leon pretendia abandonar Angie pela princesa.
Isso também devia ser frustrante para Lívia.
“Vou falar com o Sr. Leon.”
“Livia?” disse Angie, surpresa.
"Esses chás semanais com Sua Alteza são bem estranhos, por que ele continua a realizá-los do jeito que as coisas estão?" A raiva de Lívia era palpável.
"Está tudo bem" insistiu Angie.
"Deixe-o fazer o que quiser."
"Mas..."
"Ele provavelmente tem os próprios motivos para isso, certo? Além disso, já falei com ele sobre isso várias vezes e tudo o que ele fez foi me ignorar." Angie deu um sorriso amargo.
Lívia baixou o olhar.
"Como posso ficar quieta enquanto você está sofrendo assim?"
Ela entendia que Angie estava fazendo o possível para proteger Leon da manipulação dos Redgrave.
Era discutível se Leon sequer percebia que ela era seu escudo, o mais irritante de tudo para Lívia era que o país inteiro havia começado a girar em torno de Leon e ele continuava completamente alheio a isso.
"Você é mesmo uma pessoa gentil" disse Angie, abraçando Lívia.
As meninas encostaram as testas, e Lívia da mesma forma, passou os braços em volta da cintura de Angie.
“Isso não é difícil para você?” perguntou Lívia.
"Acho que sim" disse Angie, com a voz cheia de tristeza.
"Nesse ritmo, posso ser renegada. Se isso acontecer, serei uma garota comum como qualquer outra. Todo o valor que eu possuía desaparecerá, quando isso acontecer... perderei Leon."
Sim, foi graças a Angie que Leon ascendeu até o posto de duque, mas agora era sua própria destreza em combate que lhe rendia tanta atenção e respeito. No momento, ele estava perfeitamente qualificado para manter o título, mesmo sem suas conexões com Angie.
Se ela o deixasse, nada em sua vida mudaria.
Angie apertou os braços em volta de Lívia e sua respiração ficou ofegante.
"Lívia, vou ser abandonada de novo?"
"Não, claro que não, eu jamais permitiria isso!"
“Mas do jeito que as coisas estão indo…eu realmente vou perder tudo.”
Se Angie fosse expulsa de casa, toda a influência que ela desfrutava desapareceria junto. Ela estava convencida de que se isso acontecesse se tornaria completamente inútil.
"Eu odeio isso" ela sussurrou.
"Não quero ser jogada fora, não de novo."
A mente de Angie voltou ao dia em que Julius anulou o noivado.
Ela se agarrou a Lívia, chorando como uma criança.
***
Em uma das salas do palácio, um casal discutia acaloradamente.
Não era um casal qualquer — o rei, Roland Rapha Holfort, e a rainha, Mylene Rapha Holfort.
Ao redor deles, móveis estavam tombados e espalhados, deixando uma bagunça completa. A discussão acalorada havia se tornado tempestuosa.
"Chega de tolices!" gritou Mylene para o marido.
"Já não lhe expliquei inúmeras vezes que este é o melhor caminho?!"
Roland não quis ouvir uma palavra.
"Como é que este é o 'melhor caminho'?! Já concordamos em noivar Erica com um dos filhos do Marquês Frazer! Você mesmo insistiu! E agora vai anular esse acordo e casá-la com aquele pirralho pervertido? Como eu poderia ficar parado enquanto você conspira para mandar nossa querida Erica para aquele canalha imundo e imprestável?!"
Consumido pela fúria, Roland perdeu todo o senso de razão e bateu o pé em uma das mesas, apenas para bater a canela no processo.
Ele se dobrou, uivando.
"Aiiii ...”
Mylene encarou o marido com frieza.
"Então me diga, além de casar Erica com Le... aham, Duque Bartfort... de que outra forma você acha que manteremos o reino à tona?"
“Você sabe muito bem que se eu pudesse inventar alguma coisa, não estaríamos tendo essa discussão!”
“Então, se você não tem sugestões melhores, fique quieto.”
A disputa foi desencadeada pela declaração de Mylene de que casaria Erica com Leon.
Originalmente, Erica havia sido prometida a um filho do Marquês Frazer, cujo território fazia fronteira com o Reino Sagrado de Rachel.
O país natal de Mylene, o Reino Unido de Lepart, estava profundamente envolvido em tudo isso. Assim como Holfort, eles também eram vizinhos de Rachel.
A guerra entre Lepart e Rachel continuou até hoje e quando Lepart forjou uma aliança com Holfort, eles tiveram Mylene para selar o acordo. Para salvar sua terra natal, Mylene ofereceu sua própria filha ao Marquês Frazer na esperança de fortalecer ainda mais a disposição de sua casa em agir quando necessário.
Esse era o plano, até Leon que em grande parte por mérito próprio, ascendera ao posto ducal. Além disso, ele havia resolvido a mais recente crise do reino em tempo recorde.
Mylene não precisava mais da Casa Frazer para salvar sua terra natal; agora, ela desejava obter o favor de outra pessoa.
Os Frazers ficariam completamente humilhados se a família real anulasse o noivado que a realeza havia solicitado em primeiro lugar. No entanto, mesmo que estivesse plenamente ciente das repercussões, Mylene queria o poder de Leon.
Roland, por sua vez, opôs-se veementemente a essa proposta.
"Mal consigo suportar a ideia da minha adorável Erica se casar, mas com aquele pirralho, logo ele? Eu prefiro um filho de Frazer a ele a qualquer momento!"
“Você pretende ver este reino destruído por causa de seu pequeno rancor?”
A posição de Mylene era perfeitamente fundamentada e era por isso que Roland sabia que não tinha motivos para argumentar contra ela — além de reafirmar sua própria aversão à união.
"E eu te digo, ela só vai sofrer se ficar com aquele babaca!"
“Esse é o dever de quem nasceu na família real.”
"O que você é, algum tipo de demônio?! É da sua filha que estamos falando!"
"É porque ela é minha filha que rezo com tanto fervor pela felicidade dela, independentemente de com quem ela se case. Que o homem seja o Duque Bartfort é irrelevante."
A expressão de Mylene permaneceu seca, se não indecifrável. Mas, por uma fração de segundo, sua máscara cedeu, revelando a amargura por baixo.
Roland percebeu a breve brecha na fachada dela e se agarrou a ela.
"Por que você mesma não se casa com ele então?"
“Não seja absurdo, de qualquer forma, apresentarei esta proposta de noivado. Não posso permitir que os Redgraves tomem o poder dele para si.”
Para Mylene, a Casa Redgrave era agora inimiga da coroa e Roland concordava com isso.
Contudo...
"A Angélica não vai ficar quieta se você tentar casar a Erica com aquele pirralho. Se você continuar com isso, será a segunda vez que a família real vai menosprezar os sentimentos dela."
Ouvir isso provavelmente fez o coração de Mylene doer, já que a rainha conhecia Angie desde a infância. Mylene baixou o olhar por um instante, o rosto contraído pela tristeza, mas quando ergueu o queixo, qualquer traço de emoção havia desaparecido.
"O destino deste país supera em muito os sentimentos de qualquer pessoa."
"Mentirosa, você hesitou agora mesmo, não é? Você realmente adorou essa garota."
Houve uma breve pausa antes de Mylene responder:
“Se isso fosse verdade, não mudaria minha decisão.”
Considerando qualquer outra conversa uma perda de tempo, Mylene virou as costas para Roland e saiu pela porta.
Roland observava, esparramado no chão e suspirou profundamente.
"O pirralho ainda é inexperiente e mesmo assim consegue enfeitiçar as mulheres. Ele é mesmo a escória da terra."
Uma declaração hipócrita, dada a infidelidade do próprio Roland, mas ele não estava disposto a refletir sobre seus próprios erros.
Sua expressão tornou-se solene.
"Se o pedido de Mylene for aprovado, sem dúvida será a melhor coisa que aconteceu a este reino em uma era. Os aristocratas vão bajulá-lo imediatamente, tenho certeza. Mas não suporto a ideia da minha Erica se casar com aquele lixo."
Quando Roland tomou a decisão de deserdar Julius, ele aceitou isso como consequência natural das más escolhas de seu filho.
Já com Érica, a história era completamente diferente.
Ele amava muito a filha.
"Aaaah!" Roland gritou enquanto se debatia no chão novamente.
"Não suporto a ideia do meu bebê se casar!"