Capítulo 1

Publicado em 25/02/2025

"Fui Roubado de Tudo."

Você conhece algum jogo com esse título?

Como o nome já sugere, trata-se de um eroge. Mais especificamente, ele pertence ao gênero conhecido como NTR — ou, em outras palavras, histórias de traição.

A trama gira em torno de um protagonista comum. Ao longo da história, as mulheres que se aproximam dele acabam sendo tomadas por outros homens em situações intensamente dominadoras.

Normalmente, as heroínas desse tipo de jogo são amigas de infância, colegas de classe ou garotas que o protagonista conhece na escola — personagens relativamente próximas e acessíveis.

Neste jogo, porém, existem cinco heroínas.

Cinco mulheres diferentes que acabam sendo corrompidas por homens diferentes do protagonista.

Não é exagero dizer que o jogo tenta atingir todos os gostos possíveis: amigas de infância, senpais, kouhais, irmãs mais novas… até mães.

No começo, o jogo mostra o cotidiano amigável das heroínas ao lado do protagonista.

Mas, à medida que a história avança, nuvens escuras começam a pairar lentamente sobre a narrativa — até que o inevitável destino do gênero NTR se revela.

Com belas ilustrações, atuações excelentes dos dubladores e uma sequência de eventos em que mulheres lindas são lentamente transformadas em algo completamente diferente do que eram, o jogo acabou se tornando bastante popular.

Durante algum tempo, foi assunto constante nas redes sociais.

Entre todas as cenas, porém, houve uma que marcou profundamente muitos jogadores.

A cena em que a heroína principal, Ayana Otonashi, finalmente caiu.

Essa cena partiu o coração de inúmeros jogadores.

Ayana era uma personagem especial. Havia um motivo claro para os jogadores sentirem uma sensação de perda muito maior em comparação às outras heroínas.

"Antes de tudo… Ayana só tinha uma única cena H."

Diferente das outras heroínas, Ayana permaneceu ao lado do protagonista durante praticamente todo o jogo.

Ela aparece no centro da arte da capa.

Embora fosse a amiga de infância — e, teoricamente, a primeira a ser "roubada" em um jogo do gênero NTR — não existia nenhum indício claro de que algo assim aconteceria com ela.

Talvez Ayana não tivesse sido planejada como uma heroína NTR desde o início.

Ou talvez fosse uma personagem criada para trazer algum tipo de esperança dentro do próprio gênero.

De qualquer forma, havia jogadores que acreditavam nisso.

É verdade que quem compra um eroge de NTR geralmente já espera esse tipo de conteúdo.

Mesmo assim, a existência de Ayana parecia… diferente.

Mas, conforme a história se aproximava do final, essa esperança foi destruída.

Na única cena H que ela possui, Ayana já está completamente diferente da garota que os jogadores conheceram.

Aquela bela amiga de infância já havia caído.

E, para piorar ainda mais a situação…

O homem com quem Ayana estava era o melhor amigo do protagonista.

Alguém que ele considerava mais próximo do que qualquer outro.

O protagonista ficou devastado ao ver as mulheres importantes da sua vida desaparecerem e serem transformadas daquela maneira cruel.

E então, no final, Ayana apareceu.

Sem qualquer possibilidade de redenção.

Assim como o protagonista, inúmeros jogadores ficaram arrasados com aquela reviravolta inesperada.

E foi assim que o jogo terminou.

Mesmo sendo um gênero comum de traição, a forma como a história foi construída — mantendo Ayana como uma amiga de infância pura até o último momento — fez com que ela se tornasse extremamente popular.

Ayana Otonashi.

Uma heroína inesquecível.

***

"......Fue."

Depois de terminar aquele longo monólogo mental sobre algo que eu nunca contaria para ninguém, soltei um grande suspiro.

Agora eu estava no caminho para a escola.

E o que eu estava fazendo ali era simplesmente esperar alguém.

Depois de passar um tempo olhando para o celular, notei duas pessoas se aproximando pelo canto do olho.

"Ah… vocês chegaram."

Eram exatamente as duas pessoas que eu estava esperando.

Assim que perceberam que eu estava ali, aguardando pacientemente, vieram correndo.

"Desculpa por te fazer esperar!"

Quem falou primeiro foi um garoto com um ar meio preguiçoso.

O nome dele é Shu Sasaki.

A garota ao lado dele era… linda.

"Desculpa pelo atraso. Sinto muito, Towa-kun."

Seus longos cabelos negros brilhavam ao vento, lisos e sedosos, sem um único fio fora do lugar.

Seu rosto tinha traços delicados, mas o que mais chamava atenção era o olhar gentil.

Além disso, sua figura estava muito além do que se esperaria de uma estudante do ensino médio. Mesmo por cima das roupas, suas curvas eram impossíveis de ignorar.

O nome dela é Ayana Otonashi.

Sim.

Aquela Ayana Otonashi.

'...Como isso aconteceu?'

Murmurei mentalmente, cansado, enquanto os dois me olhavam.

Ayana Otonashi.

Quando percebi que ela tinha exatamente o mesmo nome — e a mesma aparência — da heroína do eroge de que eu estava pensando, fiquei em choque.

Era difícil de acreditar, mas…

Eu tinha reencarnado.

Talvez fosse mais correto chamar de possessão do que de reencarnação.

Quando despertei, já estava neste corpo.

No começo fiquei completamente confuso.

Mas, estranhamente, aquela confusão desapareceu muito rápido.

Era como se a própria vontade do mundo estivesse me dizendo para não me preocupar com isso.

Felizmente, as memórias do antigo dono deste corpo ainda estavam aqui.

Graças a isso, eu conseguia entender como minha vida cotidiana funcionava.

Claro, não me lembro de tudo.

Ainda não consigo recordar exatamente o quão próximo sou das duas pessoas que estão diante de mim.

Mas uma coisa eu entendi perfeitamente.

Este é o mundo de "Fui Roubado de Tudo."

E eu sei exatamente quem eu sou neste mundo.

"Vamos, Towa."

"…Sim."

Ayana me incentivou a caminhar.

O nome que ela chamou… era o meu atual.

'Shu, Ayana… e Towa.'

Shu Sasaki é o protagonista deste mundo.

Ayana Otonashi é a heroína.

E eu…

Towa Yukishiro.

O melhor amigo do protagonista.

Em outras palavras—

Sou o cara que rouba Ayana de Shu.

Não consegui evitar olhar novamente para o rosto dela.

"O que foi?"

"Nada… vamos indo."

Ela me lançou um olhar curioso, mas eu apenas apressei o passo.

"......Haa."

Soltei outro suspiro.

Sinceramente…

Como foi que eu vim parar nessa situação?

Ei, Deus.

Se ia me fazer reencarnar ou possuir um corpo novo, pelo menos podia ter escolhido algo mais interessante.

Normalmente esse tipo de história envolve espadas, magia e mundos de fantasia.

Então por que diabos eu fui parar em um eroge de NTR?

"Towa~? Você ficou para trás!"

"…Aconteceu alguma coisa?"

Os dois que caminhavam à minha frente voltaram a se preocupar comigo.

Shu, como meu melhor amigo.

E Ayana também.

Ela olhava para mim com preocupação.

Como esperado de uma heroína.

A gentileza dela não parecia ser dirigida apenas ao protagonista.

"Estou bem. Já estou indo."

Depois que respondi, Shu voltou a olhar para frente.

Mas Ayana ainda parecia preocupada comigo.

Só quando eu insisti novamente que estava tudo bem foi que ela finalmente assentiu e voltou a caminhar.

'De qualquer forma… já sei que este é um mundo de eroge.'

'E se esse é o caso… só existe uma coisa que eu posso fazer.'

Não tenho a menor intenção de interferir no relacionamento daqueles dois.

Cronologicamente falando, a história do jogo só começa daqui a um ano.

Ou seja, ainda falta tempo antes que tudo comece a acontecer.

'Eu não tenho interesse em traição.'

'E definitivamente não é meu fetiche.'

Na minha vida anterior, eu só comprei o jogo porque ele estava sendo muito comentado.

Posso afirmar com confiança que não gosto de NTR.

Na verdade…

Eu odeio esse tipo de coisa.

"Falando nisso, o que você vai fazer depois da escola hoje?"

"Hmm… acho que não tenho nada planejado."

"Entendi. Towa~!"

No caminho para a escola, quem mais conversava eram Shu e Ayana. Eu apenas entrava na conversa quando eles me incluíam.

Depois de algum tempo andando assim, Shu pareceu precisar usar o banheiro e correu para uma loja de conveniência próxima.

"…Aposto que ele foi fazer cocô."

Bem, não tem por que ficar envergonhado. Todo mundo faz isso.

Mesmo assim, esperar ali parecia meio constrangedor.

"Acho que vamos ter que esperar um pouco, né?"

"Eu acho que… ah—?!"

Fiquei surpreso ao ouvir a voz de Ayana tão perto.

Quando percebi, ela já estava ao meu lado.

Antes que eu entendesse o que estava acontecendo, ela pegou minha mão e a segurou entre as dela.

Por um momento, meu cérebro simplesmente parou.

Era o tipo de contato que normalmente só existe entre amantes.

Esquecendo completamente a minha posição naquela situação, meus olhos acabaram vagando até o rosto dela.

"…Fufu♪"

"…."

O sorriso dela era tão bonito que fazia o coração de qualquer homem disparar.

Eu não fazia ideia do que se passava na cabeça dela.

Mesmo assim… por algum motivo, aquele contato me trouxe uma sensação estranha de tranquilidade.

"Está quente… suas mãos, Towa-kun."

Ayana soltou minha mão por um instante e depois a envolveu novamente com as duas, murmurando baixinho.

Aquilo já estava ficando perigoso demais.

"…Ayana, vou comprar um suco."

"Ah… então eu vou também."

Eu não conseguia suportar aquela atmosfera estranhamente delicada.

Soltei minha mão da dela e entrei rapidamente na loja de conveniência.

Comprei algumas bebidas e as coloquei na bolsa.

Naquele exato momento, Shu estava saindo do banheiro.

"Comprou suco?"

"Sim. Vou beber no recreio."

"Então vou pegar um também."

Nós três compramos bebidas e saímos da loja.

Depois disso, seguimos caminho para a escola.

"…O que foi aquilo agora há pouco?"

Eu ainda estava completamente confuso com a mudança repentina de atitude de Ayana.

Agora, no entanto, ela caminhava normalmente ao lado de Shu, conversando como se nada tivesse acontecido.

Exatamente como antes.

No fim das contas, cheguei à escola ainda tentando entender o que tinha sido aquilo.

***

Quando entrei na sala de aula, Shu já estava deitado sobre a mesa, completamente imóvel.

Ayana estava cercada por um grupo de colegas, conversando.

"Bom dia, Yukishiro-kun."

"Bom dia."

Cumprimentei alguns colegas e me sentei.

Enquanto tirava os materiais da bolsa, comecei a pensar em algo.

Comparado a Ayana, que sempre estava cercada de amigos, Shu costumava ficar sozinho com muito mais frequência.

Ayana era como o sol.

Shu era… mais sombrio.

Ayana é bonita, simpática e gentil.

Não existe motivo para que ela não seja popular.

Mas Shu, mesmo sendo próximo dela, não é exatamente alguém considerado agradável por todos.

'Ayana sempre ajuda Shu quando ele se mete em problemas… e às vezes também o repreende.'

Ela faz isso porque ele é seu precioso amigo de infância.

Ao mesmo tempo em que o ajuda, também pede sinceramente que ele pare de fazer certas coisas.

Graças a isso, Shu nunca ficou completamente isolado.

Claro, algumas pessoas criticam Ayana por isso.

Mas, ao mesmo tempo, quando ela prepara bentô para Shu, muitos deles olham para ele com inveja.

"…."

Então, de repente, lembrei de algo.

'…Não. Quem também recebia parte dessas críticas era Towa.'

No jogo havia uma cena em que Towa também ficava ao lado de Ayana para enfrentar o bullying direcionado a Shu.

Do ponto de vista de Shu, Towa era um verdadeiro amigo.

Ele o ajudava, dava conselhos…

E até ajudava Shu e Ayana a desenvolverem seu relacionamento.

Mas havia algo que me chocou profundamente quando joguei pela primeira vez.

Mesmo sendo um amigo tão confiável…

Towa acabava tendo um relacionamento físico com Ayana.

E as palavras que Shu ouviu ao presenciar aquilo ainda estavam gravadas na minha memória.

"Tem que ser o Towa-kun♡ Eu não preciso de um amigo de infância tão patético e inútil♡."

Depois de ouvir aquilo, Shu desaparece da história em completo desespero.

Não faço ideia do que acontece com ele depois disso.

Mas, do meu ponto de vista…

Aquilo definitivamente não é um final feliz.

"Mas também é verdade que ele é meio idiota."

Como a própria Ayana já disse algumas vezes, Shu pode ser um pouco covarde.

É difícil entender por que tantas garotas se interessam por ele.

Mas, no fim das contas, isso é um jogo.

Não adianta tentar analisar demais.

"?"

Enquanto comparava mentalmente o jogo com a realidade diante de mim, nossos olhares se encontraram.

Ayana.

Assim que percebeu, ela abriu um grande sorriso e acenou para mim.

Eu acenei de volta, sentindo meus lábios relaxarem levemente.

Logo depois desviei o olhar, tentando agir normalmente.

Mas aparentemente aquela não era a reação que ela esperava.

"Towa-kun."

"Ayana?"

Ela se levantou e veio até mim.

"O que foi? Normalmente você sempre vem aqui, mas ultimamente não tem aparecido. Achei que fosse só um ou dois dias… mas isso continuou."

"…Ah."

Então era isso.

Pelo jeito, Towa costumava fazer parte daquele grupo.

No jogo nunca foi mencionado muito sobre as amizades dele, então eu não fazia ideia disso.

"Achei que seria bom passar um tempo mais tranquilo sozinho. Ayana também não precisa se preocupar comigo."

Como agora eu sou Towa, é natural que eu aja de forma um pouco diferente.

Mas Ayana não tinha como saber disso.

Eu apenas quis dizer que ela deveria passar mais tempo com Shu.

Só que…

A reação dela foi completamente inesperada.

"Eh? O que quer dizer com não se preocupar com você…? Por que você disse isso?!"

"A-Ayana?"

Ela agarrou meus ombros e aproximou o rosto do meu.

Estávamos perigosamente perto.

As pessoas ao redor começaram a olhar curiosas.

"Eu não quero isso… por favor, não diga algo assim. Eu não consigo simplesmente parar de me preocupar com você, Towa-kun…!"

Ela parecia à beira das lágrimas.

Eu não fazia ideia do motivo daquela reação.

Mas como Shu estava na mesma sala, tentei acalmá-la rapidamente.

"Desculpa. Só não estava muito no clima hoje. Eu gosto de ficar com vocês, mas às vezes também gosto de ficar em silêncio. Se quiser, pode vir aqui conversar."

Assim eu poderia ficar tranquilo, e Ayana também.

Assim que ouviu isso, o rosto dela se iluminou.

"Por favor, não diga que eu não preciso me preocupar com você. Eu estava quase ficando mal."

"Desculpa…"

Quando vi o sorriso voltar ao rosto dela, finalmente consegui respirar aliviado.

Mas uma dúvida continuava me incomodando.

'Que tipo de sentimentos Ayana realmente tem por Towa?'

A história do jogo ainda nem começou.

E Towa ainda não fez nada com ela.

Então por que ela parece tão desesperada?

"Mas também é importante conversar com os colegas. Se quiser, Towa-kun pode vir até lá também, tá?"

"Entendi."

Ela assentiu, satisfeita, e voltou para o grupo.

Por algum motivo, meu corpo quase tentou alcançá-la quando ela se afastou.

Como se estivesse procurando por ela.

Balancei a cabeça e desviei o olhar.

"…Estou me sentindo estranhamente cansado."

Encostei as costas na cadeira.

Foi então que alguém colocou a mão no meu ombro.

"Ei, é raro ver você sozinho."

"…Aisaka, hein."

Quem falou foi Takashi Aisaka, um colega de classe.

Sentamos perto um do outro, então conversamos de vez em quando.

A característica mais marcante dele é o cabelo raspado.

Ele faz parte do clube de beisebol e parece ser bem popular.

"…Hmm."

"O quê?"

Aisaka me observou atentamente.

Depois colocou a mão no queixo e disse:

"Você mudou um pouco. Não sei explicar exatamente o quê."

Ele pode parecer um idiota do beisebol, mas às vezes é surpreendentemente perceptivo.

Dei um sorriso irônico.

"Talvez eu tenha me tornado uma pessoa completamente diferente por dentro."

"Hahaha! Isso parece coisa de mangá! Como se algo assim pudesse acontecer na vida real!"

Concordei com a cabeça.

Realmente.

Não é algo que eu possa explicar para ninguém.

No momento em que eu tentasse contar isso…

Provavelmente seria considerado louco.

"…Ah, Sasaki-kun está sendo cuidado pela Otonashi-san de novo."

"Hm?"

Segui o olhar de Aisaka.

Ayana estava novamente ao lado de Shu.

Ela limpava algo no rosto dele.

Provavelmente uma marca que ele deixou ao dormir sobre a mesa.

Shu parecia envergonhado.

"Eu realmente não entendo. Por que Otonashi-san se preocupa tanto com Sasaki?"

"Eles são amigos de infância. É normal."

Se eu não me envolver…

Esses dois provavelmente ficarão juntos no futuro.

"Talvez. Mas quando você está perto de Otonashi-san, percebe que pessoas bonitas pertencem a um mundo diferente."

"Bonitas?"

Aisaka me olhou como se eu fosse um caso perdido.

"…Você está falando sério?"

Foi então que finalmente percebi.

'Ah… então é isso.'

Meu corpo atual.

Towa Yukishiro.

Ele é extremamente bonito.

Eu simplesmente ainda não tinha me acostumado com isso.

"…Hmm?"

Enquanto pensava nisso, olhei novamente para Ayana.

E por um instante…

Só por um instante…

Os olhos dela pareciam completamente diferentes.

Frios.

Quase inorgânicos.

Inclinei a cabeça, confuso.

Aquele olhar…

Era completamente diferente daquele que ela costuma direcionar a mim.

O olhar que Ayana dirigia a mim parecia… apaixonado.

Eu não tinha experiência suficiente para dizer se aquilo poderia ser chamado de um olhar caloroso, mas era evidente que havia algum significado na forma como ela me encarava enquanto tocava meu corpo daquele jeito.

"…Ayana?"

"Sim. O que foi?♪"

Quando chamei seu nome, ela se inclinou ainda mais, diminuindo a distância entre nós.

Havia duas mesas entre nós, então era impossível que ela chegasse realmente perto.

Mesmo assim, se eu estendesse a mão… mesmo que só um pouco… poderia tocar sua bochecha.

"O bentô da Ayana parece delicioso."

"Eh? O meu bentô?"

Estava difícil encará-la diretamente.

Não era que eu me sentisse incomodado por uma garota bonita como Ayana me olhar daquela forma.

Mas estávamos no meio da sala de aula.

Se alguém percebesse aquilo, Shu poderia acabar se sentindo estranho depois.

Então forcei a conversa para outro assunto.

"Você quer provar um pouco?"

"Posso mesmo?"

"Claro."

Ayana me entregou a lancheira.

Decidi experimentar uma omelete.

'Então este é o bentô caseiro da Ayana…'

"Amu… mogu… sim, está delicioso."

"Obrigada."

A omelete tinha um leve toque doce.

Exatamente do jeito que eu gosto.

"Se você quiser, posso fazer o bentô do Towa-kun também."

"Sério?"

Para um garoto do ensino médio, receber uma lancheira feita por uma garota é praticamente um sonho.

Meu coração chegou a vacilar por um instante.

Mesmo assim, balancei a cabeça.

"…Não precisa. Vou passar. Minha mãe parece gostar muito de preparar bentô todos os dias. Ela diz que é mais divertido do que qualquer outra coisa."

Esse era o principal motivo.

Ayana abaixou levemente o olhar.

"…Entendo. É um pouco decepcionante… mas acho que não posso competir com o sabor do bentô da sua mãe."

"Mas estava realmente delicioso, sabia? Eu comeria a qualquer hora."

Eu disse aquilo sem nenhuma intenção escondida.

Depois de pensar por um momento, Ayana sussurrou:

"Se for assim… pode me chamar quando quiser."

"Sempre que meu mestre desejar, eu vou correndo até ele♪"

"…Mestre?"

Quem seria esse mestre?

Ayana, com as bochechas levemente coradas, continuou falando como se não percebesse minha confusão.

"Mestre é mestre. Mesmo que você queira me pedir algo além de bentô… não tem problema… kyaa♪"

"……………"

Eu não estava fingindo não entender.

Eu realmente não fazia ideia do que ela estava tentando dizer.

Mas, ao ouvir aquelas palavras e lembrar do jeito como ela vinha tocando em mim…

Algumas peças começaram a se encaixar.

'…Não me diga que… Towa Yukishiro já fez alguma coisa com ela antes?'

Gritei mentalmente.

Logo depois disso, Ayana voltou ao comportamento normal.

Mesmo assim…

Fiquei pensando nisso por um bom tempo.

O intervalo de almoço terminou.

A primeira aula da tarde era educação física.

"Não deviam colocar educação física logo depois do almoço."

"Pois é. Eles podiam pensar um pouco mais no horário…"

Ainda havia comida no meu estômago, então eu não estava nada animado para me exercitar.

Mas reclamar não mudaria nada.

Então todos fomos para a aula.

"Bom… pelo menos parece que hoje vai ser fácil."

A aula principal era exercício físico, mas naquele dia seria dentro do ginásio.

Quando os alunos viram a rede montada no meio da quadra, começaram a se animar.

Meninos e meninas foram divididos em grupos para jogar diferentes jogos com bola.

"Em outras palavras… é hora do bônus!"

"Não é exatamente uma pausa… mas chega perto!"

Como nem todos podiam jogar ao mesmo tempo, a turma acabou se dividindo entre os que estavam jogando e os que estavam descansando.

"…Ayana."

"…Você está mesmo olhando."

Além de mim, quem estava no grupo de descanso era Shu.

Ele não prestava atenção nos meninos jogando.

Seu olhar estava fixo nas garotas do outro lado da rede.

'Bem… não sei se posso julgá-lo por isso.'

O alvo de Shu claramente era Ayana.

Mas, sendo um mundo de eroge, muitas das outras garotas também tinham padrões de beleza absurdamente altos.

Quase todas eram bonitas.

Algumas até com corpos impressionantes.

Mesmo assim…

Quem mais brilhava entre elas era, sem dúvida, Ayana.

"Você gosta tanto assim dela?"

"T-Towa…"

Shu endireitou os ombros.

Como somos amigos próximos, ele não parecia particularmente constrangido comigo, mesmo estando no meio da aula.

"Ayana realmente fica linda… sempre que olho para ela."

"…Sim. Ela é mesmo."

Depois de concordar comigo, Shu voltou a olhar para ela.

"…Meu Deus."

Também voltei meu olhar para Ayana.

Ao vê-la assim, lembrei do que tinha acontecido no almoço.

Mesmo sem entender completamente o significado das palavras dela…

Do ponto de vista de um observador, Ayana realmente parecia uma garota linda e encantadora.

Ela estava jogando basquete com as colegas.

Cada movimento fazia seus seios balançarem levemente.

Não apenas Shu.

Vários garotos estavam completamente hipnotizados.

"Wawaaa…"

Shu corava, envergonhado, mas não conseguia desviar o olhar.

Sorri ao ver aquilo e me inclinei para sussurrar em seu ouvido.

"Qual você acha que é o tamanho do busto da Ayana?"

"H-hm… Hã?!"

"Hahaha, você se assustou demais."

A reação dele foi tão engraçada que comecei a rir.

Não havia garotas por perto.

E como somos amigos próximos, posso brincar assim.

"…Você também olha para a Ayana desse jeito às vezes, não olha?"

"Eh?"

Ou seja, ele estava dizendo que eu não deveria olhar para ela com segundas intenções.

Mas eu também sou um cara.

Mesmo que eu não demonstre isso…

Não significa que eu não pense nessas coisas.

"Eu também sou homem. É claro que penso nessas coisas."

"Entendo… é verdade. Não tem nada de estranho nisso."

Continuamos lado a lado, observando o jogo.

"Ayana!"

"Sim!"

Ela recebeu a bola e fez um arremesso perfeito.

A bola descreveu um belo arco…

E entrou na cesta.

Enquanto suas colegas comemoravam ao redor dela, Ayana olhou para mim e para Shu.

"Ah…"

"Ela olhou para a gente."

Shu abaixou o olhar imediatamente, envergonhado.

Soltei um pequeno suspiro.

Pelo menos ele poderia acenar de volta.

"…S-sim."

Ele finalmente levantou a mão timidamente.

Eu também acenei.

Ayana sorriu ainda mais.

Depois de dizer algo às colegas, ela começou a caminhar em nossa direção.

Parecia que era a vez dela descansar.

"Bom trabalho, Ayana. Vai fazer uma pausa?"

"Sim. Vou deixar o resto com elas."

Ela passou por baixo da rede e veio para o nosso lado.

Sentou-se entre mim e Shu.

Cada vez mais alunos também iam descansar, já que a aula estava quase terminando.

"Ei, Sasaki! Já que você não fez nada hoje, troca comigo!"

Um colega chamou Shu para a quadra.

"Aguenta firme. Já está quase acabando."

"Isso. Só mais um pouco de exercício."

"…Entendi."

Shu foi, relutante.

Eu e Ayana ficamos olhando para as costas dele.

Depois disso, Ayana permaneceu ao meu lado até o final da aula.

Enquanto observava seu perfil, um pensamento me ocorreu.

'…Ela realmente tem um rosto lindo.'

Mesmo lembrando do que tinha acontecido mais cedo…

Era impossível negar.

Ayana era incrivelmente atraente.

Seu cabelo estava levemente grudado na pele por causa do suor.

Isso a deixava estranhamente… sedutora.

"Algo errado?"

"…Nada."

Ela parecia perceber até quando eu tentava olhar discretamente.

Sem saber o que dizer, acabei falando a primeira coisa que veio à mente.

"Achei… que você fica sexy quando está suada. E o cheiro também… é bom."

Assim que falei aquilo, percebi o que tinha acabado de dizer.

Mas estranhamente…

Não entrei em pânico.

Ayana ficou surpresa por um instante.

Depois sorriu de forma provocativa.

"Quer sentir o cheiro?"

Ela pegou o próprio cabelo…

E revelou a nuca.

Normalmente uma garota teria vergonha do cheiro de suor.

Mas Ayana parecia completamente tranquila.

Embora suas bochechas estivessem levemente coradas.

"………"

Antes que eu pudesse responder—

Trrriiiim!

O sinal tocou, anunciando o fim da aula.

Ayana ficou me olhando por alguns segundos.

Então soltou o cabelo com um pequeno suspiro.

"Que pena…"

"O que foi?"

"Nada."

Tentei agir normalmente para que Shu não percebesse nada.

Voltamos para a sala.

Enquanto caminhava, percebi algo.

Cada pequena ação de Ayana estava me deixando muito mais agitado do que deveria.

'…Há muitas coisas para pensar.'

'Mas… Ayana é absurdamente erótica.'

Era um pensamento que eu nunca diria em voz alta.

Mas olhando para ela…

Era impossível não pensar nisso.

Claro, ela é a heroína de um eroge.

Mas o erotismo que ela exala naturalmente…

É muito mais intenso do que qualquer coisa que alguém pudesse criar artificialmente.

"…O que estou pensando sozinho?"

Mas fazer o quê?

Eu também sou um garoto.

Durante o resto da aula, lutei contra o sono.

Depois de conseguir sobreviver até o final…

Quando a reunião de encerramento da turma estava prestes a terminar—

Algo aconteceu.

Algo que, de certa forma…

Eu já sabia que estava por vir.

"Ei… aquele Sasaki está indo bem, hein?"

Ouvi alguém murmurar isso.

Nota do Tradutor: 1 - Yorisaki - clube universitário para socializar e fazer sexo