Ainda havia algumas pessoas espalhadas pelo campo de treinamento quando chegamos — soldados empregados pela família de Lynne, presumi. Eles deviam ser muito apaixonados por seus trabalhos para continuarem seus treinos até tarde da noite.
Talvez alguns deles estivessem aqui apenas para se exercitar depois do trabalho. Esse pensamento me tocou profundamente, já que minha vida ultimamente seguia uma rotina semelhante.
“Vamos ver… Ali deve funcionar para o nosso spar.”
O lanceiro chamou um dos soldados na direção que ele havia indicado, que então lhe emprestou uma lança de treinamento com ponta de madeira. Eu havia pegado emprestada uma espada de madeira na entrada quando entramos. Eu ainda tinha comigo a espada preta que me deram de presente, mas estávamos ali apenas para lutar; a arma de treino era muito mais adequada.
Com isso resolvido, Gil… Não, espera. Hal… Não, Al…? Alguma-coisa-ou-outra-bert preparou sua lança de treinamento.
“Posso não parecer, mas fiz um nome para mim aqui na capital real” ele disse.
“Não precisa se conter, herói — mostre-me o que você tem.”
“Claro” respondi.
“Obrigado por reservar esse tempo para mim.”
“Tudo bem, aqui vou eu!”
E assim, sem mais delongas, nosso treinamento de combate ao vivo começou.
Imediatamente, o ar em torno do lanceiro mudou — ele correu direto para mim, seus olhos tão afiados quanto quando nos conhecemos, os movimentos de seu corpo indo de relaxados para ágeis.
Foi uma transição magnífica.
Só por isso, eu poderia dizer que ele não era um mero soldado comum. Repetidamente, seus golpes precisos vinham em minha direção. Sua forma polida era linda e me deu um vislumbre da quantidade extraordinária de treinamento que ele deve ter passado.
Eu desviei de seus golpes, o tempo todo cativado por eles, mas algo parecia errado.
Ele era lento.
Não, isso não estava certo. Ele estava se segurando e de forma bem significativa.
Ele já havia avaliado minha habilidade e decidido ser atencioso?
“Eu percebo que você está sendo consciente, mas não precisa se segurar tanto” eu disse.
“Até um cara como eu poderia desviar desses golpes de olhos fechados.”
O lanceiro fez uma pausa.
“O quê…? É isso mesmo, hein? Minha culpa. Então como está- esse ?"
De uma vez, ele se tornou dramaticamente mais rápido. Não havia mais nenhum traço de movimento desperdiçado em suas ações enquanto sua lança investia contra meu peito, cada golpe fluindo como água. Eu quase me perdi em sua forma fluida, por mais linda que fosse.
Mas mesmo assim, algo parecia estranho.
Ele ainda era muito lento.
Eu posso não ter conseguido mais segurar meu próprio blind, mas seus golpes ainda estavam em um nível em que eu conseguia desviar deles sem realmente precisar me concentrar.
“Não, eu ainda consigo lidar com mais” eu disse.
“Você consegue ir mais rápido.”
“Você consegue hein?”
Mais uma vez, o ar ao redor dele mudou. Seu olhar afiado agora estava praticamente me atravessando e todo seu corpo irradiava uma sede de sangue intimidadora.
Era como assistir a um mestre.
Sua lança saltava pelo ar como se estivesse dançando, se contorcendo como um animal vivo em fintas hábeis e golpes dos meus pontos cegos, com a intenção de me empalar.
Mas ainda assim, ele estava sendo muito lento. Ele tinha ficado mais rápido do que antes, claro, mas isso não era nada que eu não pudesse evitar.
Na verdade, ocasionalmente, ele estava até mesmo deixando aberturas intencionais em seus golpes, me convidando a contra-atacar.
Cada estocada repetida o deixava completamente indefeso no momento em que eu a evitava.
A única explicação que eu conseguia pensar era que ele estava me pedindo para atacar suas costas desprotegidas.
Espera, esse era realmente o caso aqui? E se essa fosse apenas sua verdadeira habilidade? Isso era mesmo possível? Se sim — se essa realmente era sua melhor — então poderia ser que eu tivesse ficado um pouco mais forte?
Assim que esse pensamento passou pela minha mente, no entanto— [Dragrave]
A aura intimidadora do lanceiro surgiu explosivamente e sua figura ficou borrada. Logo o perdi de vista completamente... e então, do nada, havia uma ponta de lança no meu campo de visão, indo direto para mim.
Eu não tinha a mínima ideia do que tinha acabado de acontecer, mas então percebi — seus movimentos anormalmente relaxados pareciam lentos, mas isso tinha sido simplesmente para me acostumar com aquela velocidade.
Em outras palavras, tudo tinha sido em preparação para este ataque rápido.
Enquanto eu vacilava, tomado pelo espanto, a lança veio diretamente para minha garganta.
Era apenas uma arma de treinamento feita de madeira, mas estava se movendo tão incrivelmente rápido que poderia ter perfurado uma rocha.
Se o ataque acertasse, então explodiria minha cabeça.
Até eu podia ver isso.
Resumindo, eu precisava desviar desse golpe.
A alternativa era a morte certa.
No mesmo momento em que percebi meu erro, coloquei tudo de mim em um [Encantamento Fisico] de força total e usei [Passo Rápido] para escapar da ponta de lança que se aproximava.
A sorte deve ter me favorecido, porque consegui me mover para trás do homem antes que ele atingisse minha garganta.
“Foi por pouco” eu disse, dando um suspiro inconsciente de alívio.
Eu me virei e observei o lanceiro, que ainda estava virado para longe de mim, parado ali silenciosamente com sua arma na mão. Realmente tinha sido por pouco. Se aquele golpe tivesse acertado, eu não teria sobrevivido.
Mas ele realmente veio até mim com a intenção de matar…?
Não, provavelmente não. Ele tinha entendido a diferença de habilidade entre nós desde o começo do nosso treino — era por isso que seus ataques tinham começado tão devagar.
Ele os tinha usado para avaliar do que eu era capaz; então, quando ele me viu ficar convencido, ele tinha atacado numa velocidade que ele pensou que eu mal conseguiria desviar.
Essa era minha leitura da situação — e assim como ele tinha previsto, eu tinha notado a lança bem a tempo de evitá-la.
Quanto mais eu pensava sobre isso, menos qualquer outra explicação fazia sentido. Mesmo agora, o lanceiro parecia estar me mostrando suas costas indefesas, mas isso era sem dúvida apenas mais do mesmo.
Ele provavelmente estava focado e pronto para virar o jogo contra mim assim que eu me enchesse de mim e tentasse atacá-lo por trás.
Resumindo, ele estava me dizendo para não ficar convencido — que eu tinha derrotado uma vaca e nada mais. O orgulho vem logo antes de uma queda horrível e foi exatamente por isso que ele saiu do seu caminho para me puxar de lado.
Isso foi um aviso.
“Eu entendo” eu disse.
“É minha perda.”
Até mesmo trazer à tona a ideia de ganhar ou perder era vergonhoso, mas era tudo o que eu conseguia dizer. Ele reconheceu minha presunção em um instante e rapidamente me colocou no meu lugar.
Pensar que ele tinha ido tão longe só para me ensinar sobre minhas deficiências... Fiquei impressionado com o quão compassivos ele e Inês eram.
“Agora eu entendo” acrescentei.
“Mais alguma coisa disso seria inútil.”
“O-O quê? O que você entendeu…?” ele perguntou.
“Está tudo bem. Sério. Já chega.”
“Não, espere. Eu não terminei com vo—”
Pelo jeito, ele ainda estava decidido a me ensinar — mas eu já tinha aprendido minha lição. Era uma que eu gravaria em meu coração:
Eu ainda estava fraco.
“Estou ansioso pela próxima vez que nos encontrarmos” eu disse.
Eu daria tudo de mim para melhorar para que, quando chegasse a hora, eu pudesse fazê-lo me encarar seriamente.
Mais cedo, eu queria correr para casa, tomar um banho e dormir para afastar a fadiga de um dia exaustivo — mas o que eu estava pensando? Eu tinha me acostumado demais com minha vida confortável aqui e, em algum momento, isso me deixou complacente.
Essa foi uma lição tão fundamental, mas ele teve que me ensinar de qualquer maneira.
Eu ainda precisava de mais treinamento. Então, meu coração em chamas com essa nova determinação, deixei os campos de treinamento para trás.
***
A princesa havia sido atacada por um Minotauro, um monstro do Abismo.
E a besta havia sido morta por um único homem.
Ao ouvir essas notícias, Gilbert, o Soberano da Lança, mal conseguiu conter sua excitação. Todos os outros no palácio real estavam preocupados com seu alívio de que a princesa estava segura e sua profunda raiva do culpado por trás do ataque, enquanto ele sozinho estava focado em algo completamente diferente: o homem que havia matado o Minotauro.
Gilbert queria saber mais sobre esse salvador.
Se os rumores sobre sua força fossem verdadeiros, então talvez ele fosse do tipo ambicioso.
Isso seria divertido. Gilbert queria ver o homem por si mesmo — conhecê-lo cara a cara.
Enquanto esses pensamentos ainda passavam pela cabeça de Gilbert, a própria pessoa que ele ansiava por ver apareceu diante dele, trazida pela Princesa Lynneburg no mesmo dia do incidente.
Gilbert achou difícil manter sua curiosidade sob controle. Ele observou atentamente enquanto o homem era convidado para a sala de audiências e atraído para uma conversa com o próprio rei, tentando avaliar sua verdadeira habilidade.
Os feitos do homem eram impressionantes o suficiente para garantir que ele fosse chamado de herói.
O rei Clays queria conhecê-lo pessoalmente, para ver como ele realmente era. Que tipo de pessoa estava por trás de tudo isso? Ele estava constantemente desejando força também? Era com essa esperança de ter encontrado uma espírito semelhante que Gilbert observou com interesse, sua curiosidade aguçada.
No entanto, o estranho diante dele era inesperadamente humilde. Ele não queria moedas, terras, propriedades ou honrarias.
Mesmo quando o rei lhe ofereceu montanhas de tesouros do tipo que faria os olhos de qualquer pessoa comum brilharem, ele permaneceu firme em sua recusa.
Sua fala era áspera, mas seu porte era ousado.
Gilbert, que havia sido criado como órfão, não conseguia ver nenhuma parte do homem que não gostasse.
Para alguém que supostamente derrotou um Minotauro sozinho, o homem parecia surpreendentemente brando. Ele parecia ter a mesma idade de Gilbert e, em termos de físico, era um pouco mais alto e um pouco mais forte.
Nesse aspecto, ele certamente não poderia ser descrito como fraco — mas, ao mesmo tempo, ele também não parecia particularmente motivado.
Gilbert não sentiu a intensidade que esperava de alguém aparentemente tão talentoso.
Esse homem era realmente forte? Agora que eles se conheceram, Gilbert estava começando a ter suas dúvidas.
Para falar francamente, Gilbert era forte e orgulhoso disso. Ele era considerado um dos melhores combatentes que o Reino tinha a oferecer.
Mesmo em tenra idade, ele provou ser o suficiente para ganhar o apelido de “Soberano da Lança”, um título digno de ser mencionado no mesmo fôlego que a classe mais forte do mundo, o Soberano da Espada.
Com exceção de Ines, a ganhadora recebedora do título de “Escudo Divino”, Gilbert foi o órfão mais jovem a chegar ao seu posto atual e o membro de ascensão mais rápida do seis corpos armados da Capital Real. Ele não tinha igual, forçado a treinar sozinho usando um regime que ele mesmo criou. Os únicos lembretes de que lhe faltava experiência vieram na forma de tutela ocasional de seu instrutor, Sig, o Soberano da Espada — também conhecido pelo lendário título de “Sig das Mil Lâminas”.
Fora isso, Gilbert nunca encontrou nada que pudesse chamar de obstáculo ao seu progresso.
Para ele, até mesmo Sig era apenas uma meta que ele eventualmente superaria.
Nem mesmo Ines, portadora de um Dom, atualmente reconhecida por todos os Seis Soberanos como o maior trunfo militar do Reino, já havia derrotado Gilbert em um sparring. Isso era de se esperar, considerando que ela desempenhava um papel diferente, mas ainda assim — Gilbert não duvidava de seu poder. Se ela liberasse sua verdadeira força, então ela seria capaz de nivelar toda a capital real como se não fosse nada.
Ele sabia disso muito bem e essa era precisamente a razão pela qual eles nunca poderiam lutar um com o outro seriamente.
Foi também por isso que Gilbert a achou tão chata.
Eles nunca conseguiam ir com tudo quando lutavam um contra o outro. Suas forças eram de naturezas distintas.
Na verdade, não havia emoção alguma a ser encontrada contra um oponente como aquele. O que ele queria era outra coisa— outra pessoa.
Mas não havia ninguém que pudesse se igualar a Gilbert. Ele não tinha rival para falar e depois do que pareceu uma eternidade disso ser verdade... ele ficou entediado. Sua vida era desprovida de emoção.
Todos eram muito fracos.
Ele queria um oponente de verdade — alguém que tivesse sua idade, com quem pudesse competir e chamar de igual. Embora soubesse que seu desejo era egocêntrico, uma parte dele lá no fundo, bem no fundo, continuou a procurá-lo de qualquer maneira.
Então, esse homem misterioso chegou.
Todos estavam convencidos de que ele era forte — e se os rumores sobre ele ter matado um Minotauro fossem verdadeiros, então ele era.
Tremendamente forte.
Gilbert não pôde deixar de se perguntar: ele finalmente encontrou um oponente digno? Ele não iria desperdiçar essa oportunidade de descobrir, então desafiou o homem para um duelo sob o pretexto de querer lutar — e, ao contrário de suas expectativas, o homem aceitou obedientemente.
Assim que o duelo começou, Gilbert lançou-se contra seu oponente com um ataque de força total após o outro... mas não importava o que ele fizesse, o homem não retaliaria.
Gilbert começou a se perguntar o que poderia estar acontecendo, mas então—
“Eu percebo que você está sendo cuidadoso, mas não precisa se conter muito. Até um cara como eu poderia desviar desses golpes de olhos fechados.”
O homem disse diretamente que nem considerava essa luta um desafio.
Gilbert podia sentir esse insulto de seu oponente de maneiras suaves o corroendo, mas ao mesmo tempo, o sangue correndo para sua cabeça trouxe consigo uma sensação agradável.
Era a primeira vez que algo assim acontecia com ele. Normalmente, qualquer tipo de disputa seria resolvida muito antes de ele ter que ficar sério.
Talvez, por essa razão, ele tenha inadvertidamente se contido.
“O quê…? É mesmo, hein?” Depois de um momento para se acalmar, Gilbert reajustou sua postura.
“Minha culpa. Então como é— isso?”
Tendo renovado sua compreensão da força do homem, Gilbert decidiu abandonar suas dúvidas anteriores e atacou com toda sua força.
Seus golpes eram tão ferozes que ele surpreendeu até a si mesmo enquanto continuava sua ofensiva. Esta foi a rajada de ataques mais rápida e afiada que ele já tinha desencadeado.
Ele podia sentir isso e essa exibição impressionante fez Gilbert perceber que ele realmente estava se segurando.
Essa foi a primeira vez que ele se sentiu tão satisfeito com seu trabalho de lança.
E ainda assim, algo estava errado. Mesmo depois de um ataque tão intenso, não havia sinais de que sua lança tivesse sequer arranhado seu oponente.
Não só isso, mas o homem nem sequer tentou usar a espada de madeira que estava empunhando. Ele estava observando calmamente a trajetória da arma de Gilbert e evitando-a com o mínimo de movimento necessário.
O movimento dos pés do homem era tão incrivelmente preciso que a lança poderia muito bem não estar se movendo.
Resumindo, ele estava lendo Gilbert como se fosse um livro.
Enquanto isso, Gilbert estava levando sua força ao limite. Não, ele podia sentir que já tinha ido além deles.
Mas mesmo assim, ele não conseguiu nem arranhar seu oponente. Nem um único golpe acertou.
Nada parecido com isso havia acontecido com ele antes.
Então, o homem falou novamente:
“Eu ainda consigo lidar com mais. Você pode ir mais rápido.”
“Você pode hein?”
Tudo bem então. Gilbert riu internamente; algo dentro dele tinha estalado.
‘Se minha força total é o que você quer—'
[Dragrave]
Era o ataque mais forte em todo o seu arsenal — um golpe de lança mortal mais rápido que a velocidade do som.
Ele já o havia usado para matar um Dragão do Trovão que rasgava os céus mais rápido que um raio.
Era um movimento poderoso o suficiente para destruir qualquer oponente e era exatamente por isso que ele nunca o havia usado contra uma pessoa.
A ideia em si deveria ser impensável, mas agora...
Esta não foi uma decisão que Gilbert tomou conscientemente; seu corpo agiu quase por instinto e a resolução veio a ele tão naturalmente quanto respirar.
Os instintos de batalha que ele havia afiado ao limite absoluto já haviam chegado a uma conclusão: nada mais poderia tocar este homem.
Sua lança sozinha não era o suficiente.
Antes que Gilbert percebesse, sua arma estava voando em direção à garganta do oponente. O ataque tinha sido tão rápido que sua própria consciência não tinha conseguido acompanhar.
Se acertasse, o homem morreria... mas Gilbert não guardava arrependimentos.
‘Graças a Deus. Vai chegar. Só mais um pouquinho e minha lança vai chegar nele. Graças a Deus.’
Durante aquele breve momento, incomparavelmente mais curto do que levaria um piscar de olhos, esses foram os únicos pensamentos que cruzaram sua mente.
Então, sua lança acertou, mergulhando direto na garganta do oponente.
Ou assim ele pensou.
O homem havia desaparecido, como se fosse um fantasma. Foi só quando os sentidos de Gilbert o alcançaram que ele percebeu que seu oponente estava agora parado atrás dele.
Completamente perdido quanto ao que tinha acabado de acontecer, Gilbert só conseguiu ficar ali em silêncio atordoado.
Mas antes que esses sentimentos se transformassem em consternação, ele notou algo estranho: uma grande cratera nas lajes onde seu oponente estava. Quando isso apareceu? O chão estava intacto há apenas um momento.
Gilbert não tinha ideia do que poderia ter causado isso, mas sabia que tinha que estar relacionado aos eventos que tinham acabado de ocorrer.
Com toda a probabilidade, tinha sido por causa de algo que seu oponente tinha feito.
Virando a cabeça, Gilbert viu que as lajes tinham sido esmagadas em outros lugares também. A destruição deve ter exigido uma quantidade considerável de força, mas ele não ouviu nenhum som e não sentiu nenhum impacto.
O que no mundo poderia ter sido responsável?
“Eu entendo. A perda é minha.”
Gilbert estava procurando uma resposta para o mistério quando seu oponente, ainda de pé atrás dele, falou de repente.
“Agora eu entendo” continuou o homem.
“Mais alguma coisa disso seria inútil.”
“O-O quê? O que você entendeu…?”
“Está tudo bem. Sério. Já chega.”
“Não, espere. Eu não terminei com vo—”
Não importa como se considere, o resultado da luta de sparring foi a derrota completa e absoluta de Gilbert. Foi a primeira vez que ele perdeu uma luta direta sem nem mesmo conseguir arranhar seu oponente. E ainda assim...
“A perda é minha.”
O homem havia se rendido.
Alguns subordinados de Gilbert ainda estavam espalhados pelos campos de treinamento, fazendo seus próprios exercícios. Seu oponente havia cedido porque notou seus olhares.
Em outras palavras, o homem não apenas havia vencido, mas também havia demonstrado misericórdia.
O homem caminhou silenciosamente em direção à saída do campo de treinamento, quebrando o silêncio apenas uma vez ao passar por Gilbert.
“Estou ansioso pela próxima vez que nos encontrarmos.”
Então, enquanto Gilbert permanecia imóvel, o homem se despediu sem nem olhar para trás.
Pela primeira vez, Gilbert tremeu com o sentimento de derrota.
Para aqueles que viviam pela espada, não havia maior humilhação do que ser rendido por pena... mas maior ainda era sua pura alegria. Pois agora ele tinha um novo objetivo — uma nova pessoa — para lutar.
Naquela noite, enquanto murmurava para ninguém em particular, Gilbert, o Soberano da Lança, percebeu que um sorriso feroz havia surgido em seu rosto.
“Sim. Acho que isso vai ser divertido também.”